16/06/16

A CASA (excerto)


Espero-a. Não consigo tocar em nada, o coração impaciente. No...
corpo da casa balanço o meu próprio corpo. Não há, de facto, li-
mites, nem para a cobardia nem para a audácia.
Deserto este, a casa. Deserto. Apenas o odor impensável da água
pura, o perfume do vazio, a descoberta por fazer, peregrinação
dos olhos: contornos da luz, travessia de sombras, espécie de cis-
ne vogando na penumbra. Espero-a como se perguntasse ao mar
pelo outro lado de mim. Relação. Círculo. Divisão. Fogueira. O
tempo, o fóssil do futuro. Espero-a.
A casa recolhe os últimos fios de luz. Filtra-os, borboletas de voo
suave. Fibras. Tranças. As paredes expõem o grande quadro da
nudez e o silêncio vem ocupar o espaço da luz, movendo-se. Do
outro lado do vidro, chove, permanece chovendo. Sigo com o olhar
uma gota, esse monumento ínfimo da criação, no seu caminho de
fulgor para a morte, mensagem de há cem milhões de anos envia-
da ao coração. Pelos estreitos corredores do outono a água circu-
la na memória. Nenhuma verdade é inteiramente verdade.

Joaquim Pessoa in CADERNO DE EXORCISMOS

3 comentários:

Mar Arável disse...

Bem-vinda ao espaço aberto

bettips disse...

Que lindo, a gente reconhecer-se sem se conhecer, como numa floresta, as árvores do mesmo porte e folhagem!

Canseiroso disse...

Intenso...