12/11/09


Não sei para que lado da noite

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

Carlos Alberto Machado in Talismã

31/10/09



Silentium

Speak not, lie hidden, and conceal
the way you dream, the things you feel.
Deep in your spirit let them rise
akin to stars in crystal skies
that set before the night is blurred:
delight in them and speak no word.

How can a heart expression find?
How should another know your mind?
Will he discern what quickens you?
A thought once uttered is untrue.
Dimmed is the fountainhead when stirred:
drink at the source and speak no word.

Live in your inner self alone
within your soul a world has grown,
the magic of veiled thoughts that might
be blinded by the outer light,
drowned in the noise of day, unheard...
take in their song and speak no word.

Fyodor Tyutchev (trad.de Vladimir Nabokov in Three Russian Poets)

29/09/09



Poema

Eleges o lugar da ferida
onde falamos o nosso silêncio.
Fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.

Alejandra Pizarnik in Antologia Poética

23/09/09



37° 52' 5.08" N 25° 47' 35.96" W

20/09/09



eu, gaivota
sobrevivente de tempestades
voo planando sobre o teu corpo ilha
e nem os ventos contrários que fustigam as asas
impedem-me o verde

11/09/09



existe sempre ontem na memória que me enche de
sonhos, os teus dedos tocam-me dentro dos sonhos.
nos teus lábios, imagino beijos. perdi-me no mundo.

José Luís Peixoto in “A casa, a escuridão”

05/08/09


Imagem: Helena Monteiro - Caneta/pincel com tinta da China

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

Teresa Balté in Poesia Quase Toda

25/07/09


Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, Quem tens lá no fundo?
É Esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma: será dia!

Álvaro de Campos - Obras Completas

22/07/09

especialmente hoje


No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
...

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

Mia Couto in Desencontros

17/07/09


Sables mouvants

Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Démons et merveilles
Vents et marées
Et toi
Comme une algue doucement carressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Mais dans tes yeux entrouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.

Jacques Prévert in "Paroles"

11/07/09


Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza


e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto in O Medo

01/07/09


Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.

Bernardo Pinto de Almeida in Hotel Spleen

25/06/09


as palavras hibernam
nas cores esbatidas de lentas madrugadas
áridas sonolentas as mãos pausam
na ausência da tua pele poema

ate que o tempo acorde

24/06/09



há mortes que não sabem que a morte

é um verso que deixa

destroços


como um grande naufrágio



Maria Azenha

28/05/09



distendem-se as asas
ensaio o voo...

que nas tuas mãos molda-se a miragem do mundo novo

25/05/09



"...Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo..."

17/05/09


o teu rosto à minha espera.o teu rosto
a sorrir para os meus olhos.existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos finas e claras.vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de Outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será hoje na memória.

hoje compreendo os rios.a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luis Peixoto in «A casa, a escuridão»

09/05/09

03/05/09



entre cinzas despontam horizontes límpidos
e da tua voz promessa, madrugadas sem bruma

tão simples
como o sopro do vento que embala a flor…

01/05/09


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

18/04/09



“Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o Inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.”

José Luis Peixoto in A criança em ruinas

14/04/09


era Fevereiro e nascia a Primavera
tu desenhavas-me campos de flores
e um sol tão grande que me aquecia
era Fevereiro nascia a Primavera

e eu aprendia o nome das cores…

10/04/09

05/04/09


Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros in Poemas

31/03/09


Abril
prenúncio latente de horizontes
largos

rota traçada a girassóis...

29/03/09


AZUL DE TI

Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.

Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.

Es como un horizonte de violines
o un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.

El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.


Eduardo Carranza in Antologia Poética

23/03/09


Na voz que emana o canto
ensaia-se o tímido planar da gaivota

nas notas uníssonas
apazigua-se a alma

17/03/09


No dorso do teu olhar alado
recuso o abismo
rasgo nevoeiros em voo picado
desfaço teias, sopro névoas

e vejo-te com olhos de alma liberta

20/02/09


apago sombras, o medo
tons de cinzento e o negro
que a alma pode ser tela
óleo, aguarela

salpicada de arco-íris

16/02/09


Canción del amor prohibido

Sólo tú y yo sabemos lo que ignora la gente
al cambiar un saludo ceremonioso y frío,
porque nadie sospecha que es falso tu desvío,
ni cuánto amor esconde mi gesto indiferente.

Sólo tú y yo sabemos por qué mi boca miente,
relatando la historia de un fugaz amorío;
y tú apenas me escuchas y yo no te sonrío...
y aún nos arde en los labios algún beso reciente.

Sólo tú y yo sabemos que existe una simiente
germinando en la sombra de este surco vacío,
porque su flor profunda no se ve, ni se siente.

Y así dos orillas tu corazón y el mío,
pues, aunque las separa la corriente de un río,
por debajo del río se unen secretamente.


José Angel Buesa in Babel

04/02/09


aquieta-se a alma no silêncio
ânsia de escutar bater de asas
sobra urgência de mãos na noite adiada

talvez seja tarde
talvez madrugada...

31/01/09


Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.

Há um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti. Há um saber pela experiência
o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência

que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)

naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.


Manuel Alegre

27/01/09


Já sei que primeiro vê-se a estrela do futuro,
antes do futuro vê-se a estrela
dizem que a estrela está quase pronta
para ser vista pela primeira vez uma madrugada
e assim todos os dias
sempre
até que eu acabe


Almada Negreiros in Segunda Manhã

22/01/09


das palavras à ternura
suspende-se a alma

entre o salto e a rede
subtraem-se medos...

18/01/09



o vento castigando os ramos da velha laranjeira, indiferente ao pio agoniado das gaivotas que adivinham o aproximar da tempestade
sobre as letras de um poema de Rilke dançam as sombras quentes da vela
nas mãos de Menuhin o arco desliza no violino pintando de suave nostalgia as paredes da sala

houvesse um Domingo perfeito e tu estarias aqui…

16/01/09

...da noite só o poema por encontrar
e o bailado murmurante dos fantasmas
ergue-se lentamente a manhã
tentando rasgar a bruma

árdua e inglória tarefa

07/01/09


Lá fora, não sei onde
- talvez dentro de mim -
ouço o ranger dum barco
na invenção das ondas
aladas no vento...


José Gomes Ferreira

30/12/08


...prefiro-te
entre toda a claridade

toque de luz
que me transforma em habitante da lua

19/12/08


NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre

09/12/08


Desconforto II

Vazio de cidade,
há uma desordem em mim.
Contemplador de desvãos,
vou esculpindo infrutíferas buscas.
O que há de encontro na minh’alma
é só o apóstrofo.
Busco desvencilhar-me da ferrugem da estrada,
do ferrolho das minhas ausências,
quando substantivo a vontade.
Há em mim doença de lagarta,
predisposição para casulo,
pretensão para eterno.
Voar é o meu destino.
Rastejante, carrego primórdios,
contemplo a estrada.

Francisco Perna Filho in Refeição

27/11/08


Canção

Limiar de ser
entre sombra e voo
à face de ser
pouco mais que sopro

Sem saber se é
criatura ou ar
entre o não sei quê
e o saber voar

Todo iluminado
feito só de errância
conhece o acaso
e a circunstância

Ténue passageiro
de um gesto a lembrança
no seu voo ei-lo
como uma criança

Sem rosto nem rasto
despido de branco
voa contra o vento
ébrio de ser anjo.

Bernardo Pinto de Almeida in e outros poemas

05/11/08


A estrada não trilhada

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longo declive
no qual, dobrando, desaparecia...

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atractivo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
Duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Robert Frost in Antologia Poética

28/10/08

CAMPANHA SOS CAGARRO 2008
O Cagarro é a ave marinha mais caracteristica dos Açores,estimando-se a sua população em cerca de 203.000 casais reprodutores.
Os seus cantos nocturnos são peculiares e inesquecíveis, sendo uma das aves mais antigas que existem à superfície da terra
Entre Março e Outubro, os Açores são procurados por esta ave marinha para a respectiva nidificação, sendo mesmo considerado o mais importante local do mundo utilizado para o efeito.
No fim de Outubro os cagarros juvenis, que já atingiram a plumagem e o tamanho adulto são abandonados, nos ninhos, pelos progenitores e, movidos pela fome, lançam-se ao mar, enfrentando várias ameaças :

A destruição do habitat de nidificação, através da introdução de plantas e animais exóticos, o crescimento urbano e da rede de estradas litorais,a captura e morte de adultos e crias para obtenção de isco, para alimentação ou ainda por pura crueldade,são factores que associados ao atropelamento e colisão de cagarros juvenis em estradas e localidades, contribuem para o aumento da elevada taxa de mortalidade que se verifica na época do outono.

Este ano salve um cagarro
Procedimentos para salvar um cagarro
Se encontrar um cagarro ferido ou desorientado faça o seguinte:
- Prepare uma caixa de papelão (por exemplo uma caixa de sapatos) e faça-lhe alguns furos.
- com uma camisola, casaco ou manta cubra o cagarro;
- Apanhe-o e coloque o cagarro na caixa de papelão;
- Leve o cagarro para casa e deixe-o dentro da caixa num local sem barulhos que o possam incomodar;
- Não alimente o cagarro, para que ele não se habitue;
- Na manhã seguinte, dirija-se a um local perto do mar;
- Solte o cagarro, deixando-o pousado no chão e afaste-se do local;
- Ao fim de pouco tempo, o cagarro começará a voar e encontrará o seu caminho.



25/10/08


há muito não sei de mim…
procuro-me no centro das cornucópias azuladas do fumo de um cigarro que, a espaços tenta combater a insónia, companheira permanente de existências sem asas
haverá um Deus das causas perdidas, das almas cansadas, a quem acender uma vela, a quem ensaiar uma prece?

que o vento que fustiga a noite é quase tão frio, quanto a tua ausência

15/10/08


O Vemos, ouvimos e lemos honrou este modesto blogue com o "Prémio Dardos", no qual

"se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:


1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;

3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.


Dando cumprimento às regras,aqui estão, como sempre, os meus mais queridos


8ª edição
a janela de alberti
as mãos por dentro do corpo
cantigas de amigo
estados de alma
in@rq
linha de cabotagem
marulhos
cantigueiro
o farol
passages
perolas de ouro
selos difusos
tons de azul
traços e cores

13/10/08



DERIVA/XIII

Canção rente ao nada
No silêncio quieto
Da noite parada
Como quem buscasse
Seu rosto e o errasse

Sophia de Mello Breyner Andresen in Navegações

07/10/08


mar azul em tarde calma
crepúsculo
aurora boreal

não sei…

jamais saberei dizer-te das cores com que meus olhos te pintam

03/10/08


Olho com cuidado.
Desponta uma flor
pelas frinchas do muro.

Bashô, Matsuo Munefusa (1644-94)

27/09/08


Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar

Dos teus olhos meu amor
Nascem as ondas do mar
Lágrimas tristes que choram
Saudades do teu olhar

Dos teus olhos meu amor
Nascem as ondas do mar


Fado de Coimbra

14/09/08


só no teu canto encontro paz

em acordes de revolta tempestade
ou no dolente marulhar da acalmia
na pausa das palavras por escutar

nada importa…tu és o meu mar…

22/07/08


Love song

Do not stare at me. do not. I am sincere.
there are many things that happen beyond
my limited control and disappear.
Why should I tell you that I’m not so fond

of most of them? why should I otherwise
coldly excuse myself for having no fear?
I have no time left. believe me, the skies
tell us everything is as clean and clear

as a knife’s blade wiped after de red
bleeding of sacrifice, wose mirror says
it will be drawn again and kill instead
of reflecting your narrow flashing face.

Let’s then look at the moon above the trees.
Never forget how much I love you. please.


Vasco Graça Moura in Poesia 2001/2005

10/07/08



Abandono

A quem senão a ti direi
como estou triste? Mas se a tristeza vem
de tu não estares, como ta direi, como hei-
de juntar o que me está doendo ao ven-
to que não bate mais à tua porta? Eu sei

que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo

sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado

ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.

Não haver palavras és tu a desaparecer.


Bernardo Pinto de Almeida in Hotel Spleen

05/07/08


...sempre que te vejo...
crescem asas que não tenho
e a brisa fresca que te precede
dissipa a bruma que me envolve



02/07/08



“De tudo abri mão, mais nada me resta. De quanto possuí, só tu, esperança, permaneces comigo. “

Nietzsche

25/06/08

Para ti!


Partiste...
logo hoje que sol brilhava
partiste

agora anoiteceu
dentro e fora da minha alma
no vazio da tua ausência
afasto a lágrima que me impede o céu
e vejo mais uma estrela

acho que és tu... a sorrir para mim

até sempre mana!

31/05/08


Flores

É nestas flores, em particular, que
vejo desenhar-se uma linha que me leva
de mim a ti, passando sobre um campo
invisível, onde já não se ouvem
os pássaros, e onde o vento não faz cair
as folhas. Estamos em frente de um canteiro
puramente abstracto, e cada uma destas flores
nasceu das frases em que o amor se manifesta,
e do movimento dos dedos sobre a pele,
traçando um fio de horizonte
em que os meus olhos se perdem. Por isso estão
vivas, e alimentam-se da seiva
que bebem nos teus lábios, quando os abres,
e por instantes a vida inteira se resume
ao sorriso que neles se esboça.

Nuno Júdice in Poesia Reunida

27/05/08


vaga...mente

23/05/08

Só depois de sentir a textura das nuvens na tuas mãos
percebi sentimentos que não cabem em poemas

não existem palavras de sentir
capazes de desenhar reflexos de um sonho

então não digo …

20/05/08

Foto de Zé Pedro



"Movimentos"

Apertei mais a tua mão presa na minha e senti-te subitamente longe. Dobrei mais ainda os dedos sobre os teus quase fincando as unhas, sentindo a pele quente, os dedos compridos, firmes, toda a tua mão como que todo o teu corpo. A saudade, a distância do teu corpo, a distância da tua mão ali na minha. O teu perfil recorta-se na quase total escuridão da sala. Desvio os olhos de ti e fixo-os no ecran brilhante, luminoso; o teu perfil persiste sobrepondo-se à rapariga que canta (...)


Subitamente distante encolho-me e sinto-me tão só que aperto mais os dedos sobre os teus numa espécie de arrepio e torno-te a olhar o perfil correcto desenhado e frio na obscuridade da sala. Nos meus ombros a ausência do teu braço cria um vazio, uma ferida, uma cicatriz dolorosa. (...)



Maria Teresa Horta in Ambas as mãos sobre o corpo

19/05/08



Domingo
hoje inverteram-se os papeis
não fomos ver o mar
fui eu ver-te
ver-te ... ver o que resta de ti
sorri, impedi a lagrima
gracejei e engoli a raiva
so não te disse como doi,
como gosto de ti

anda, vamos ver o mar...

13/05/08



Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago in Os Poemas Possíveis

Mesmo quietinha e sem publicar grandes coisas, fui honrada com mais um destes prémios, que circulam na blogosfera.

A excelência do blogue de onde provém obriga-me a não ficar indiferente e proceder à sua publicação e consequente distribuição.

Claro que, como sempre, estas atribuições tem regras, mas a verdade é que ando tão cansada delas que, desta vez, apeteceu-me subvertê-las.

Assim, este prémio é para TODOS VÓS, os poucos mas muito bons, que sempre me visitam.

Levem-no… é Vosso!!!


01/05/08



it is at moments after i have dreamed
of the rare entertainment of your eyes,
when (being fool to fancy) i have deemed

with your peculiar mouth my heart made wise;
at moments when the glassy darkness holds

the genuine apparition of your smile
(it was through tears always) and silence moulds
such strangeness as was mine a little while;

moments when my once more illustrious arms
are filled with fascination, when my breast
wears the intolerant brightness of your charms:

one pierced moment whiter than the rest

-turning from the tremendous lie of sleep
i watch the roses of the day grow deep.

e.e.cummings

29/04/08


Amor Vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! a luz fundida
Que penetre no meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

Antero de Quental in Sonetos

24/04/08


Ilha do Lago Innisfree

Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana erguerei lá, de barro e vime feita:
Nove renques de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho na ensurdecedora clareira.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caíndo dos véus da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Oiço a água do lago a folhear murmúrios na rebentação;
Quando vou por estradas, ou por passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.

William Butler Yeats in Pequena Coletânea de Poesias de Língua Inglesa

22/04/08


Elegía Suspirante

El amor enlazaba nuestros pasos, recuerdas?

Hacia mi corazón con indolente gracia
caía tu cabeza, recuerdas?, como cae
sobre el hombro del viento una rama de acacia.

Nos tendía sus brazos desnudos el aroma
de las frutas; tu alma se iba y regresaba
como si por instantes entreabriera los párpados.
Entre los dos estaba como un cuento el silencio.

Balbuceaba el agua lo que los dos callábamos.
la sombra de las hojas pasaba por tu rostro,
como suele el silencio pasar entre la música.
Desleía la tarde su pétalo en tus ojos.

Tu corazón se ha ido, ahora, con la fuente.
El viento habrá borrado los pasos en la arena,
borrado habrá el olvido mi huella por tu frente,
como borra el crepúsculo la luz con que te escribo.

Eduardo Carranza in Seis elegías y un himno

19/04/08



poema (2)

De tarde, no campo, nenhum pássaro cantou;
e só neste fim de dia um vento traz o assobio
da primavera melancólica: despedidas,
imagens breves, nenhuma inspiração. O sopro nocturno,
porém, anuncia um reflexo de espelho no fundo
do corredor. A voz surge de um dos quartos
em que a ausência se perde. Um baço
murmúrio se aproxima do gemido que evoca
o mar - sem que a onda se decida, quebrando
o som agonizante. Então, abro a porta
e chamo-te; sabendo que só a noite me responderá.

Nuno Júdice in Poesia Reunida 1967 -2000

14/04/08



Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentada
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancólicamente.

E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não trás o exaspero das lágrimas nem a fascinação
Das promessas nem as misteriosas palavras dos véus da alma.
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieto, muito quieto
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem
Fatalidade o olhar estático da aurora.

Vinicius de Moraes in Poesia completa e prosa

08/04/08


Soubesse eu ao menos...

Soubesse eu ao menos
- mas quem sou eu
de quem a voz que fala no poema?-
dizer-te neste dia
- mas quem és tu
quem tu a quem este poema se quer fala?-
o quanto a tua voz
não estando aqui
batendo junto à minha voz
como se uma fosse só da outra o vasto eco
me deixa abandonado
como se só essa voz- a tua voz
fosse sopro e forma de mim mesmo
a tua voz que inunda
a tua voz que percorre
por dentro das veias
a tua voz
que quando em mim a ouço
correndo-me por dentro como o sangue
se faz da minha a origem
em mim se faz princípio
me dá o encantamento de ser dia
outra vez
essa voz que sendo tu e eu ao mesmo tempo
me retira da Noite em que obscuro
permaneço sem nome e até sem rosto
sem forma nem princípio
assim se cala.

Bernardo Pinto Almeida in Depois que tudo recebeu o nome de luz ou de noite

01/04/08



A LUZ

Não se pode prever. Sucede sempre
quando menos o esperas. Pode acontecer que vás
pela rua, depressa, porque se faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
te encontres em casa de noite, a ler
um livro que não consegue convencer-te; pode
acontecer também que seja verão
e te tenhas sentado na esplanada
de um café, ou seja inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou fatigado,
que tenhas trinta anos ou sessenta.
É imprevisível. Nunca sabes
quando nem como ocorrerá.

Decorre
tua vida igual a ontem, comum e quotidiana.
«Um dia mais», dizes para ti. E de súbito
desata-se uma luz poderosíssima
dentro de ti e deixas de ser o homem que eras
há só um momento. O mundo, agora,
é para ti diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
tão longos da infância e respiras à margem
de seu escuro fluir e seu estrago.

Pradarias do presente, por onde erras livre
de cuidados e culpas. Uma agudeza insólita
mora em teu ser: tudo está claro, tudo
ocupa o seu lugar, tudo coincide e tu,
sem luta, compreende-lo.

Talvez dure
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes que essa luz te desse
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te calmo, puro, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.

Eloy Sánchez Rosillo in Maneras de Estar Solo, trad. José Bento
_____________

26/03/08

É o tempo cansado arrastando a repetição dos dias

hábito recente de anunciada ausência

são mãos de silêncio acariciando o espaço vazio

e o sol insistindo em brilhar... apesar de ti

13/03/08


que dirias hoje
se soubesses que amanhã
não estou cá
que em mais nenhum amanhã
eu vou estar cá
sim,que me dirias?
..hoje...

09/03/08



hoje não amanheci
é ... há dias em que não amanheço
entra a noite pelo dia,
pautas de acordes incompletos, rodopiam
e as letras, caindo num abismo transparente
recusam formar palavras que digam...

06/03/08



Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.


Carlos Drummond de Andrade In As Impurezas do Branco

28/02/08



... devagar...
muito devagar
passos calçando ternura
controem-se pontes

tão frágeis
...tão seguras...

26/02/08



Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto


António Ramos Rosa in O Teu Rosto(1994)

21/02/08

voo no dorso do verso
afago breve de mão fugidia
…horizonte que tarda em chegar …

20/02/08


recebi um destes dias este mimo que, orgulhosa e disfarçadamente, ostento no cantinho inferior direito deste humilde blogue, oferecido por Cantares de amigo e Pequenos Nadas, com a indicação de passá-lo a outros sete blogues que reunissem em meu entender as seguintes condições:

" sabe aquele blog do tipo que, apesar da sua vida corrida, com milhões de relatórios pra entregar, clientes pra recepcionar, patrão te enchendo o saco, você não pode deixar de dar uma olhadinha para conferir as novidades? aquele blog que você lê todo santo dia, mesmo que não haja novidades? aquele tipo que, no trabalho, ou numa caminhada, ou num churrasco entre amigos, você não vê a hora de acessar a internet pra dar uma olhadinha? enfim... pra atalhar... aquele blog que não te sai da cabeça???presenteie, então, o autor desse blog com esse selo..."

Então as minhas escolhas são:

oitava edição

selos difusos

linha de cabotagem

na dualidade da cor

passages

as mãos por dentro do corpo

un-dress

Levem-no que é vosso...

15/02/08


Melodia apenas
- sem caveiras de fogo
a iluminarem o pensamento das pedras.

Melodia apenas
- sem o suor das mãos dadas
no guiar dos labirintos.

Melodia apenas
- sem as lágrimas por dentro das flores
a queimarem o coração dos mortos.

Melodia apenas
dos pássaros ocos
a cantarem nas àrvores
a repetição emplumada
do cio do primeiro mundo...

Vem, melodia!

Melodia apenas.


José Gomes Ferreira in Poeta Militante

09/02/08

... os muros e as paredes ...

densos nevoeiros
de cinzentos impossíveis

mesmo assim brilhas
e respingas de sol o meu olhar

05/02/08


um leve bater de asas
…foi quanto durou…

não tivessem teus olhos
a mais perfeita das cores
e jamais saberia
da palavra poema

27/01/08

trazido pelo vento
eco de risos distantes,
trote de cascos molhados
mastigando beira-mar

não sei se oiço,
ou invento
saúdo-te apenas
Noite Negra,
que a Lua é dos amantes

23/01/08


...reclusas as palavras...

17/01/08

nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

15/01/08


...
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
As vezes amanheço, e minha alma está húmida.
Soa, ressoa o mar distante
...

Pablo Neruda

13/01/08


sonhei-te

mar imenso, incêndio incontrolável,
avassaladora tempestade de sentidos

e no entanto … um só olhar
basta-me

09/01/08


Quais são as tuas palavras essenciais?
As que restam depois de toda a tua agitação
e projectos e realizações.
As que esperam que tudo em si se cale
para elas se ouvirem.
As que talvez ignores
por nunca as teres pensado.
As que podem sobreviver quando o
grande silêncio se avizinha.

Vergílio Ferreira

04/01/08

Abraço

De repente deu vontade de te dar um abraço...
Uma vontade de entrelaço, de proximidade.
de amizade..sei lá..
Talvez um aconchego que enfatize a vida e
amenize as dores...
Que fale sobre os amores,
que seja teimoso e ao mesmo tempo forte.
Deu vontade de poder rever saudade
de um abraço.
Um abraço que eternize o tempo
e preencha todo espaço
mas que faça lembrar do carinho,
que surge devagarzinho
da magia da união dos corpos, das auras..sei lá..
Lembrar do calor das mãos
acariciando as costas
a dizer..
"estou aqui."
Lembrar do trançar dos braços envolventes e seguros afirmando
"estou com você"..
Lembrar da transfusão de forças
com a suavidade do momento ..sei lá..
abraço...abraço...abraço...
abraço...abraço..abraço...
abraço...abraço...abraço...
O que importa é a magia deste abraço!
A fusão de energia que harmoniza,
integra tudo, e que se traduz
no cosmo, no tempo e no espaço.
Só sei que agora deu vontade desse abraço!!
Que afaste toda e qualquer angústia.
Que desperte a lágrima da alegria,
e acalme o coração..
Que traduza a amizade, o amor e a emoção.
E para um abraço assim só pude pensar em você....
nessa sua energia,
nessa sua sensibilidade
que sabe entender o por quê...
dessa vontade desse abraço.

Vinicius de Moraes

21/12/07

Feliz Natal


recados para orkut

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19/12/07


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhamos na cidade clandestina
Quando as manhas cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa in Antologia Poética

16/12/07

insólito bailado
de ventos ciclónicos
sacode-me a alma

sinto-te fim

e rodopiam as palavras
ébrias do sal
das lágrimas contidas

12/12/07


Que me importa que chova e arrefeça
à minha passagem
se trago na cabeça a ideia e o luar
que estendo na paisagem quando a noite chegar?
(E não há luar mais belo
do que esta música de concebê-lo.)
[…]

José Gomes Ferreira in Poeta Militante II



Porque quando se ousa caminhar, serenamente os atalhos de todos os sonhos e memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo... e o quase nada.

10/12/07


Nirvana

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais

Antero de Quental in Sonetos

06/12/07



...e a maciez de tudo:
um lápis entre os dedos,
dois cigarros,
quatro colheres de
açúcar,
que me amargava o chá
(mesmo de nervos)

Assim já está
melhor: amarga a vida
mas o chá docinho:
luminosa cidreira
entre pregas e rotas
interiores.

Caminho certo
para o coração

Ana Luísa Amaral- Aritmética, in Poesia reunida

03/12/07



(Prelúdio em forma de grito, para um livro de confissões pessoais que nunca escreverei)

Ouve, tu que não existes em nenhum céu:

Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos
- menos eu.

Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal.

Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros.

- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer.

..................................................................................

Ah! Se eu imitasse a alegria das arvores e do vento
Que riem sem motivo.

Mas não. Ando triste.
Já não me contento em sentir-me vivo…
(E que outro destino existe?)


José Gomes Ferreira in Poeta Militante

30/11/07



Difícil...
difícil e inglória tarefa, esta das mãos tentarem acompanhar ao teclado,

o pensamento que vagueia inquieto...

27/11/07


Canción de la espera

Espero tu sonrisa y espero tu fragancia
por encima de todo, del tiempo y la distancia.
Yo no sé desde dónde, hacia dónde, ni cuándo
regresarás... sé sólo que te estaré esperando.

En lo alto del bosque y en lo hondo del lago,
en el minuto alegre y en el minuto aciago,
en la función pagana y en el sagrado rito,
en el limpio silencio y en el áspero grito.

Allí donde es más fuerte la voz de la cascada,
allí donde está todo y allí donde no hay nada,
en la pluma del ala y en el sol del ocaso,
yo esperaré el sonido rítmico de tu paso.

Comprendo que de mí ya se ría la gente
al ver cómo te espero desesperadamente.
Cuando todos los astros se apaguen en el cielo,
cuando todos los pájaros paralicen el vuelo
cansados de esperarte, ese día
lejano yo te estaré esperando todavía.

No importa: aunque me digan todos que desvarío,
yo te espero en las ondas musicales del río,
en la nube que llega blanca de su trayecto,
en el camino angosto y en el camino recto.

Niño, joven o anciano, sonriendo o llorando,
en el alba o la tarde, yo te estaré esperando,
y si me convenciera que ese ansiado día
no habría de llegar, también te esperaría.


José Angel Buesa in Babel

26/11/07


…de como nada mais precisa dizer, pois que já o fez Álvaro de Campos, como abaixo de pode ler...

I

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei,
De nada me serviria sabê-lo
Pois o cansaço fica na mesma,
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
[…]
Estou cansado é claro
II

[...]
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia
ver da rua
Não há travessa achada o número de portas que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapso de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
[…]

Lisbon Revisited (1926)

III

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
[…]
O que há em mim é sobretudo cansaço

22/11/07


Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.


Álvaro de Campos

21/11/07


Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


No calcanhar do vento
António Ramos Rosa in Antologia Poética

19/11/07

As minhas Ansiedades

As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.

Na Múmia a posição é absolutamente exata

Música longínqua
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos


Fernando Pessoa -Cancioneiro



Chuva: fenómeno meteorológico que consiste na precipitação de água sobre a superfície da Terra
-Nem todas as chuvas atingem o solo, algumas evaporam-se enquanto estão ainda a cair -


manhã submersa... ilha submersa… alma submersa

18/11/07


On the stiff twig up there
Hunches a wet black rook
Arranging and rearrainging its feathers in the rain.
I do not expect a miracle
Or an accident
Sylvia Plath

Sinto que também tu a vês rondar, sombra de negro vestida, rindo irónica, indiferente e insensível ao tempo que por direito te devia esperar

apertas-me a mão, sorriso calmo e cansado, como a pedir que a tire dali, que não a deixe ganhar

e eu tento afastá-la da única forma que sei, com as únicas armas que tenho
… meus braços para te abraçar…


16/11/07


Um dia… não hoje
um dia vou escrever chilreios de pássaros, céus azuis, campos de flores
mãos dadas, sorrisos alegres
e uma alvorada de mil cores

um dia… não hoje
hoje escrevo rosto em traço cerrado, névoas de silêncio pesado,
negro céu carregado, vento de sopro gelado
e uma mão cheia de amanhãs adiados

13/11/07



Cumpria-se Novembro na primeira hora daquela tarde
antes que a chuva chegasse aberta para lavar o jardim com mansidão
e humedecesse meus olhos pela cor perdida,
que a memória não ajuda a reter o sabor de um beijo,

procurei azul …

cumpria-se Novembro e naquela tarde que era quase uma noite, olhei o céu e a sua luz empalidecera também.

quem pôde desbotar as cores dos meus olhos?

12/11/07

Balada de sempre


Espero
a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
debruço-me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas sebes e nas ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
- ânsia alada
no meu desejo imaginada
Mas
enquanto deixo a janela aberta
para entrares
o mar aí além,
lambe-me os braços hirtos,
braços verdes
algas de sonho
- e desenha ironias na areia molhada

Fernando Namora in As frias Madrugadas

07/11/07


falta um espaço no tempo… um compasso no espaço
falta talvez, apenas um passo
sobram sorrisos alegres, palavras amáveis…
máscaras moldadas em ausências de ti

04/11/07

Longinqua e calma melodia
no lado vazio da noite perturba silêncios

São dedos, libertos do medo...
dedilham ternura, desvendam segredos

E cristalinas lágrimas, tecidas de sonho por cumprir
imitam gotas de chuva
.

02/11/07

Dando cumprimento ao desafio que me foi lançado, aqui vai:

1) Sem escolher, pegar no livro mais próximo;
2) Abri-lo na página 161;
3) Na referida página procurar a 5ª frase completa;
4) Transcrever na íntegra para o seu blogue, a frase encontrada;
5) Passar o desafio a 5 bloggers;

7) Divulgar o nome e o autor do Livro.

“ Começamos a falar de progresso.Disse que a questão de fazer o bem ou fazer o mal, cada um de nós decide por si, sem esperar o momento em que a Humanidade chegue a uma conclusão sobre isso, através do desenvolvimento progressivo"

Anton Tchekov
A minha vida - relato de um provinciano

E agora passo o desafio a : Palavras previamente Ensaiadas, As mãos por dentro do corpo, Urbanidades, Selos difusos e Marulhos

31/10/07

'Lascia ch'io pianga'

Deliciem-se no feriado a ouvir Angela Gheorghiu cantar ,como ninguem, esta ària da ópera "Rinaldo" de Handel, e com direito a tradução:

Tiraste-me do meu querido céu, para minha tristeza!
E aqui, em dor eterna, manténs-me viva em tormento eterno!
Ah, Senhor! Piedade! Deixe-me chorar.
Deixe-me chorar o meu cruel destino
E almejar a liberdade!
E possa a dor, quebrar as cadeias do meu sofrimento!”

30/10/07


por entre serenas tempestades e vagas de assustadora calmaria
navego meu barco de sonhos e mágoas
qual lua mansa sobre mar revolto
rumo a porto seguro
e sinto o salgado naufrágio da tua ausência

…ao longe, velas brancas envoltas nas brumas de um amanhecer distante…

28/10/07


Não sei das palavras que escorriam da alma desenhando aguarelas de azuis por inventar

tenho as mãos vestidas de vazio

23/10/07


tal como és, assim te quero, e sempre
diverso cada dia do que foste;
cada imperfeito gesto que inventares
me fará desejar-te em outro verso.
Da arte do soneto feito mestre
no concurso sem regra da floresta,
na mais pequena folha te descubro
e no caule do vento é que te perco.
Da turva luz já retirei o emblema
que me sirva de rosto permanente
e venha o cabeçalho do poema;
e pedirei á noite que me empreste
um farrapo do manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te

António Franco Alexandre (Duende)

Não tremas. Eu não te vou prender, não te vou perseguir, não te vou enfeitiçar. És inteiramente livre.Poderia eu querer-te preso, mesmo a mim, depois do que para mim foste? Se eu te prendesse, ainda que com laços de imenso amor, a que tu próprio não quizesses fugir, que alegria seria a tua nos meus braços, ou a minha nos teus? Amar-me-ias por certo com uma violência maior, como se quizesses matar-me com as tuas armas de homem, e eu tiraria um prazer dobrado. Mas depois... depois como poderia eu olhar-te nos olhos, vendo neles um rancor horrível de estares preso a mim, rancor que nem tu confessarias a ti mesmo, mas que os teus olhos me diriam para sempre, a cada hora, mesmo quando ardessem no desejo ou no acto de estares em mim?Então ele recostou na anca dela a cabeça e, de olhos fechados, ficou assim demoradamente, sem pensar em nada, sem sentir nada, apenas dado ao calor que o penetrava suavemente e era só ternura. No sono que o envolvia como um cansaço feliz, a sua ama, com a voz dela, cantava-lhe um velho cantar que, pouco a pouco, foi deixando de ouvir, na deriva em que se afastava de tudo e de si mesmo, com a sensação de que não estava só na barca que descia o rio. E a segurança que jamais estaria só, nunca, nunca, em parte nenhuma.

Jorge de Sena ( O Físico prodigioso)

22/10/07


[…]
Sonhei tanto contigo,
Caminhei tanto, falei tanto
Amei tanto a tua sombra,
Que já nada me resta de ti.
Resta-me ser sombra entre as sombras
Ser cem vezes mais sombra que a sombra
Ser a sombra que há-de vir e voltar
Na tua vida cheia de sol.

Robert Desnos - Corps et Biens (À la mystérieuse)

21/10/07

Insónia


Toda a noite, lentamente, dois ponteiros no relógio dançaram a valsa do tempo
e eu a vê-los dançar…
assim que o sol despertar, mal o candeeiro da rua se apague, vou subir à rocha mais alta e atirar os meus sonhos ao mar
quando, lentamente, dois ponteiros no relógio recomeçarem a valsa do tempo,
só o candeeiro da rua os irá ver dançar

19/10/07

Happy Birthday "old" friend

Por acreditares que é possível saltar muros altos e atravessar portas fechadas
Uma das minhas preferidas:Ella Fitzgerald-Georgia on my mind

18/10/07

gosto da melancolia contida na chuva miudinha
que enfeita os dias de céu cinzento

gosto da bruma que invade a ilha
envolvendo minha alma numa inquieta nostalgia

céu cinzento... inquieta nostalgia...

14/10/07

How I wish you were here


So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold confort for change?
And did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here

Roger Waters e David Gilmour

10/10/07

Poema del renunciamiento



Pasarás por mi vida sin saber que pasaste.
Pasarás en silencio por mi amor, y al pasar,
fingiré una sonrisa, como un dulce contraste
del dolor de quererte ... y jamás lo sabrás.

Soñaré con el nácar virginal de tu frente;
soñaré con tus ojos de esmeraldas de mar;
soñaré con tus labios desesperadamente;
soñaré con tus besos ... y jamás lo sabrás.

Quizá pases con otro que te diga al oído
esas frases que nadie como yo te dirá;
y, ahogando para siempre mi amor inadvertido,
te amaré más que nunca ... y jamás lo sabrás.

Yo te amaré en silencio, como algo inaccesible,
como un sueño que nunca lograré realizar;
y el lejano perfume de mi amor imposible
rozará tus cabellos ... y jamás lo sabrás.

Y si un día una lágrima denunciar mi tormento,
-el tormento infinito que te debo ocultar-
yo te diré sonriente: "No es nada ... ha sido el viento".
Me enjugaré la lágrima... y jamás lo sabrás

José Angel Buesa in Babel

09/10/07

Aedh Wishes for the Cloths of Heaven


Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
Lavrados com a prata e o ouro da luz,
Os tecidos azuis e foscos e de breu
Que têm a noite, a luz e a meia-luz
Estenderia esses tecidos a teus pés:
Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;
São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;
Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.


W. B. Yeats in: The Land Of Heart's Desire (1894)

07/10/07

Não queiras saber de mim...


Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim

Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo

Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado

Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo


Carlos Tê/Rui Veloso

04/10/07


E agora uma questão:

Caros amigos, como se sentiriam se dessem de caras com os vossos escritos, postados por outras pessoas, noutros blogues ou em comentários, e ainda por cima, assinados descaradamente como sendo delas?

Por uma questão de princípios, senti-me triste... não devia?

Oceano Nox


Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Antero de Quental (Poesia Completa, 1842-1891)

01/10/07


a cada folha que cai há um prenúncio de despedida
na aragem da tarde sopra gelada a palavra adeus
e no caminho, castanho laranja, em cantos distantes…
o som dos teus passos

28/09/07

Ilhas de bruma


Por isso é que eu sou das ilhas de bruma

Onde as gaivotas vão beijar a terra

É que nas veias corre-me basalto negro

No coração a ardência das caldeiras

O mar imenso me enche a alma

E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança

27/09/07

1957 - 2007

No dia 27 de Setembro de 1957 iniciou-se uma erupção submarina ao largo do Farol dos Capelinhos, na Ilha do Faial. O Vulcão dos Capelinhos, para além de constituir um marco histórico da vulcanologia mundial, pelos estudos e ensinamentos que proporcionou, marcou decisivamente a história de uma Ilha e de uma Região.

26/09/07

“Phyrrula murina”

E hoje resolvi falar de uma ave com a qual tenho uma relação de especial carinho.
Talvez por ser tão frágil e pequena, talvez por se encontrar em vias de extinção, facto é que gosto muito deste "passarinho".

Eis o PRIOLO:

O Priolo, de nome científico “Phyrrula murina”, é uma ave de pequenas dimensões, com um peso médio de 30 gramas e cerca de 16 centímetros de comprimento, característica pelo seu aspecto robusto e altivo, com uma coroa negra na cabeça, bico igualmente negro, curto e forte e uma cauda preta, que se alimenta exclusivamente de vegetação.

Esta ave que só existe nos Açores está ameaçada de extinção.
De acordo com o ultimo censo realizado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) existem cerca de 490 priolos, que vivem circunscritos a uma área de 6.000 hectares de floresta, na zona Oriental de S. Miguel, já classificada como protecção especial.

A partir do próximo mês de Outubro a ilha de S.Miguel vai dispor de um centro ambiental dedicado ao priolo, no Parque Florestal da Cancela do Cinzeiro, no Nordeste.

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações,
Não sei o hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.

O Pastor Amoroso - Alberto Caeiro

24/09/07

despem-se cinzas e véus
e cantares de bruma sombria
bailam sopros idílicos de cor
só tu acendes o sol

23/09/07



Porque hoje é Domingo aqui está uma prenda: RENÉE FLEMING numa interpretação fantástica de "Un bel di vedremo" da ópera Madame Butterfly de Puccini
Vá la digam que não gostam…

21/09/07


Se deste outono uma folha,

apenas uma, se desprendesse

da sua cabeleira ruiva,

sonolenta,

e sobre ela a mão

com o azul do ar escrevesse

um nome, somente um nome,

seria o mais aéreo

de quantos tem a terra,

a terra quente e tão avara

de alegria.


Eugénio de Andrade

18/09/07


antes que se dilate a sombra da noite
o anjo branco faz a sua aparição
e fechando-se em minhas pálpebras, e abrigado nelas
expulsa com sua espada de fogo o mundo hostil que gira às escuras

e não há negro para ele nem para mim

17/09/07

Lost… in translation



пришел к тебе с приветом...

Я пришел к тебе с приветом,
Рассказать, что солнце встало,
Что оно горячим светом
По листам затрепетало;

Рассказать, что лес проснулся,
Весь проснулся, веткой каждой,
Каждой птицей встрепенулся
И весенней полон жаждой;

Рассказать, что с той же страстью,
Как вчера, пришел я снова,
Что душа все так же счастью
И тебе служить готова;

Рассказать, что отовсюду
На меня весельем веет,
Что не знаю, сам что буду
Петь, но только песня зреет

Afanasii Fet

16/09/07

Edward Pothast - Looking out to Sea

“Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontramos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado”

José Luís Peixoto; excerto de “Capricórnio a seus Pés” in Antídoto

Sebastião Alba - Ninguém meu amor

Piet Mondrian, Mill in Sunlight, 1908


Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-los a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos


in «A Noite Dividida»

14/09/07


O tempo passa
A vida passa
Eu passo

Com o passo no compasso
Com o passo em descompasso

Passam os dias
Em passo lento
Em passo apressado

E eu passo
E a vida passa
E o tempo passa

E tudo passa ...

13/08/07


qual estrela cadente
riscou um céu negro
iluminando-o por breves (e)ternos instantes
de uma cintilante transparência

10/08/07

09/08/07


“…Talvez nunca ninguém tenha baptizado pedras, mas Manuel deu nome a muitas. De tanto viver com elas, chegou ao ponto de lhes falar.

De lhes dar os bons dias e desejar boa noite. Com ar sério, com sentimento a sério. Precisava delas para se sentar, para subir mais alto e avistar mais longe, para se deitar á sua sombra. E a gente ama aquilo de que precisa e dá nome àquilo que ama.

Os nomes eram todos de mulheres, o que as tornava mais belas. E algumas tinham diminutivos, como se pudessem crescer.

Num recôndito aonde não havia quem fosse, e se lá fosse, não seria visto nem poderia ver ninguém, estava plantada uma pedra de que nunca precisara. Por isso não tinha nome. Se ali falasse sozinho não o chamariam maluco. Se ali chorasse, não lhe diriam que era um maricas. Na segunda-feira, foi até junto dela. E a pedra passou a ter nome..”

Daniel de Sá
(O Pastor das Casas Mortas)

08/08/07


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

07/08/07


"Cortaram os trigos.
Agora a minha solidão vê-se melhor"


Sophia de Mello Breyner

03/08/07


Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.

Fernando Pessoa

Narciso Yepes - Recuerdos de la Alhambra



É ... esta noite estou assim...

01/08/07


Aqui está mais um dos meus escritores favoritos, T.S.Elliot em:

Burnt Norton

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espirito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
(…)

30/07/07

I Pagliacci de LeonCavallo- Vesti La Giubba




Porque hoje as palavras são o silêncio feito de ausências.


A noite sem madrugada
A alma rasgada
amputada
e as lágrimas…
as lágrimas por dentro do rosto

28/07/07



Há um entardecer de silêncios partilhados que, melodicamente, dissipa distâncias

25/07/07


hoje tem estrelas,
gosto de estrelas
as estrelas não cabem onde se possa guardar
nada verdadeiramente belo,
cabe onde se possa guardar


na face,
gota de orvalho
salgada
e essa mania de querer ser garça,
escalar o vento

24/07/07

O Homem é um Animal Irracional


1. O homem é um animal irracional, exactamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, o homem é um animal irracional complexo. É esta a conclusão que nos leva a psicologia científica, no seu estado actual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, é que dirige e impera, no homem como no animal. A consciência, a razão, o raciocínio são meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe são inferiores.

2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada.

3. A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja o domínio do instinto por meio de instinto reputado superior. Esse instinto é o instinto estético. Toda a verdadeira política e toda a verdadeira vida social superior é uma simples questão de senso estético, ou de bom gosto.

4. A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe. As épocas maiores da humanidade são aquelas em que sobressaem os criadores de arte, mas não se sabe como se realizam essas épocas, porque ninguém sabe como se produzem homens de génio.

5. Toda a vida e história da humanidade é uma coisa, no fundo, inteiramente fútil, não se percebe para que há, e só se percebe que tem que haver.

6. A plebe só pode compreender a civilização material. Julgar que ter automóvel é ser feliz é o sinal distintivo do plebeu.

O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.

Fernando Pessoa, in 'Reflexões Sobre o Homem - Textos de 1926-1928

Nunca me canso de ler isso...

23/07/07


Espuma de bruma,
mar sonho
adiado
lava cinza
barco, na terra ancorado

22/07/07


Hoje é Domingo e o Sol vestiu a ilha.

Como sempre, lá estava ele, no banco do jardim, tendo por companhia fiel aquela que nunca o deixava só, a garrafa do vinho.

Indiferente à beleza do dia, indiferente aos que, indiferentes, passavam.
A barba amarelada pelo esquecimento, numa face enrugada, certamente de mágoa e tristeza, olhar espezinhado pela vida.

E afinal também ele, num passado distante, teve uma mãe que o acarinhou, um filho a quem amou, sonhos e ambições no olhar. Num outro olhar diferente…

Eu … eu, continuei, pois hoje é Domingo e o Sol vestiu a ilha.

21/07/07


O que sinto?
Está escrito...no rugido que irrompe das entranhas da terra!

20/07/07


Que mar é este que prende,envolve, e no entanto me liberta?

19/07/07

Vivo del Mar?


Vivo del mar?...
(El mar por mí ha nacido
y al sol del mar mi soledad se acoge.)

Canto a la soledad:
Mar de la soledad por qué no brillas?
Mar de tu soledad vive mi cuerpo.
Mi soledad sin piel también te busca.
Soledad soy del mar para cantarte!

Tendido en ti, mi soledad, espero
que al sol de ti mi soledad responda.
-Sobre la soledad del mar que vivo
desnudo en soledad, qué mar se esconde?

(...)
Emilio Prados


Ignoro as distâncias que espreitam nas esquinas do tempo

18/07/07


Hoje apetece-me partilhar um poema de que gosto particularmente, extraído do livro A Base e o Timbre de Fernando Echevarria, que este ano foi o vencedor com "Obra Inacabada", do Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen.

Iluminar-se a análise
por trás de cada ponto da pupila
desembacia a base
de ver. E ver culmina
na ordem luminosa por onde as mãos se fazem
inteligência que desliza
e arde quase
no material que surge análise
da ciência divina.

Benzo-me em nome da melancolia,
ciência teológica que funda
sermos a história reflectida
de não haver nenhuma,
senão a de um espelho que ilumina
os pensamentos da sua face pura
e onde sermos pensados nos inclina
a ver história onde só há leitura
do esquecimento e da melancolia,
ciências da lógica absoluta.

17/07/07


Diz tanto o silêncio quanto uma manha de bruma.
Ei-lo breve, e brevidade não precisa de sentido

16/07/07

"Vê mais longe a gaivota que voa mais alto"


"...Virgilio Gaivota abandonou o Bando,cambaleando pela areia,arrastando a asa esquerda, e caindo aos pés de Fernão.
- Ajuda-me - pediu-lhe baixinho, com voz de moribundo. - O meu maior desejo é voar--.
- Então, vem - disse Fernão.- Sobe comigo e começaremos.
- Não entendeste... A minha asa... Não consigo movê-la.
- Virgilio Gaivota, tu tens a liberdade de ser tu próprio, o teu verdadeiro eu. Aqui e Agora, nada se pode intepor no teu caminho.Essa é a Lei da Grande Gaivota, a Lei que É.
- Queres dizer que posso voar?
- Quero dizer que és livre.
Assim, tão simples e rápidamente, Virgilio Gaivota, abriu as asas, e sem esforço, elevou-se na noite escura.O Bando foi despertado, pelo seu grito bem alto:
-Posso voar! Ouçam! POSSO VOAR! ..."

Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach

Hoje não vai ser fácil...

15/07/07

Narciso Yepes - Concierto de Aranjuez de Joaquim Rodrigo




Vá hoje é Domingo. Bom dia para vos dar uma prenda...Deliciem-se

Esta madrugada vi Retrato de uma Senhora. Uma adaptação ao cinema da novela clássica de Henry James com realização de Jane Campion, (a mesma de O Piano) , e tendo nos principais papéis Nicole Kidman, John Malkovich e Barbara Hershey.
Gostei!

14/07/07

Hoje descobri este poema saxónico do sec IX
O conceito aqui transmitido, amedronta.
Acho que estou fúnebre…

A SEPULTURA

Para ti foi construída a casa, antes de nasceres.
Para ti destinada a terra, antes que saísses de tua mãe.
Não a fizeram ainda. Ignora-se a sua fundura.
Não se sabe ainda que comprimento terá.
A tua casa não é muito alta. É humilde e baixa.
Quando estiveres aí, as valas serão baixas, humildes as paredes.
O tecto está perto do teu peito. Habitarás então no pó e sentirás frio.
Toda a treva e toda a sombra apodrecerá no covil.
Essa casa não tem porta e não há luz lá dentro.
Aí estás firmemente encarcerado e a morte possui a chave.
Aborrecida é essa casa térrea e atroz é morar nela.
Aí estarás e hão-de devorar-te os vermes.
Aí estás fechado longe dos teus amigos.
Nenhum amigo te visitará para te perguntar se essa casa te agrada.
Ninguém abrirá a porta.
Ninguém descerá a esse lugar porque muito depressa serás aborrecido para os olhos.
A tua cabeça será despojada do cabelo e a beleza apagar-se-á.


Quando a noite não for um espaço vazio...

13/07/07


Eu não sou supersticiosa... Dá azar!

Nostalgia -Bergman

Lembrou-me "Peniche”, um filme que vi há muitos anos; Sommarlek, na versão Portuguesa, Juventude do grande Ingmar Bergman.
Bergman, esse realizador de excelência que, como ninguém, conseguiu despir na tela sentimentos e abordar temas tão intrínsecos ao ser humano, como o amor, o desejo e a morte.
Lembrei-me igualmente de Fanny e Alexandre, Mónica e o desejo, Morangos Silvestres e principalmente o meu favorito Sonata de Outono.
A nostalgia obriga-me a revê-los muito brevemente.

12/07/07


Se querer bastasse...

11/07/07

10/07/07


Tivesse eu asas ao invés de correntes...

Bill Evans – From Left to Right


Um sol radioso brilha lá fora lembrando-me a todo o instante que preciso das férias, que ainda demoram a chegar e fazendo o espírito viajar para sítios longínquos
Vale-me a redescoberta de um Cd que andava esquecido há muitos anos, para ajudar a concentrar-me.
Uma maravilha…”Why Did i Choose You”

Hoje só me apetece...

09/07/07

Memória


Y resbaló el amor estremecido
por las mudas orillas de tu ausencia.
La noche se hizo cuerpo de tu esencia
y el campo abierto se plegó vencido.

Un ayer de tus labios en mi oído,
una huella sonora, una cadencia,
hizo flor de latidos tu presencia
en el último borde del olvido.

Viniste sobre un aire de amapolas.
Como suspiros estallando rojos,
bajo el ardor de las estrellas plenas,

los labios avanzaron como olas.
Y sumido en el sueño de tus ojos
murió el dolor en las floridas venas.


Dionisio Ridruejo

08/07/07

Sopro


É naquele remoto sopro dentro do coração
que cada um reconhece o seu destino.
O sonho mais proibido: a ideia de um infinito
por fim quotidiano deixado em sorte
ao corpo do amor.
Rendido e prisioneiro para conservar intacto
o seu sabor, subtraído ao vazio havido entre as coxas
longamente, em vão, como a água que todavia desliza da mão.

Paolo Ruffilli

07/07/07

As 7 maravilhas do (meu) mundo


Porque trazemos um mundo dentro de nós, elegi as 7 maravilhas, daquele que é o meu:

- Os livros, todos os que li, todos os que me faltam ler, em prosa, em verso,repletos de palavras, fragmentos de vida.

- Suite n.3 em Ré maior,BWV 1068. de Bach

- Madame Butterfly de Giacomo Puccini

- O mar, revolto, rugindo agitado pelas tempestades que o atormentam. O mar, calmo e tranquilo, murmurando canções, embalando os sentidos

- O cheiro da terra húmida num entardecer de nevoeiro baixo,nas margens da Lagoa das Sete Cidades

- A mão pequena de um bebé, agarrando a minha, pedindo que lhe mostrasse o mundo a que acabava de chegar

E o verde…verde àgua, verde ilha, verde mar, por onde se passeiam os meus sonhos

06/07/07

05/07/07


Eu sei,

Às vezes o que faz sentido é desistir

Baixar os braços, encolher os ombros

Deixar o tempo correr

Sem ter de escolher, sem ter de decidir



"…E, no entanto, é preciso cantar,

mais do que nunca é preciso cantar…"



"Ser como um rio que fluí

Silencioso no meio da noite

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas no céu, reflecti-las

E se os céus se pejam de nuvens

Como o rio as, nuvens são água;

Reflecti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranquilas"



E eu estou aqui

Hoje é assim:

04/07/07

03/07/07

02/07/07


Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

Alberto Caeiro

James

De tanto amor a minha vida tingiu-se de violeta
e andei de senda em senda como as aves cegas
até chegar á tua janela, meu amor:
tu sentiste um rumor de coração partido

e então das trevas subi ao teu peito,
sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver nas tuas mãos,
saí do mar para a tua alegria.

Ninguém pode contar o que te devo, é evidente
o que te devo, amor, e é como uma raiz
nascida na Araucânia, o que te devo,amor.

É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,
e o que te devo é como o poço duma zona silvestre
onde o tempo guardou relâmpagos errantes



Neruda – Soneto LXIV

01/07/07

O elmo de Mambrino


" -Valha-me Deus senhor Dom Quixote, que não posso aguentar ou ter paciência com algumas coisas que vossa mercê diz, já que por elas imagino que tudo isso deve ser coisa de vento mentira ou patranhas, ou como lhe queira chamar. Porque quem ouvir vossa mercê dizer que uma bacia de barbeiro é o elmo de Mambrino, e que não sai deste erro há mais de quatro dias, que há-se pensar, senão que quem tal diz e afirma deve ter pouco juízo?
-Olha Sancho Pança – disse Dom Quixote - que tens o mais curto entendimento que tem ou teve algum escudeiro no mundo. Será possível que em todo o tempo que andas comigo não tenhas deixado de ver que todas as coisas dos cavaleiros andantes parecem quimeras, loucuras e desatinos, e que são todas feitas ao contrário? E não porque sejam assim, mas porque andam sempre entre nós uma caterva de encantadores que mudam todas as nossas coisas, as trocam e voltam a trocar a seu gosto, consoante nos querem favorecer ou destruir. Por isso, aquilo que a ti te parece uma bacia de barbeiro parece-me a mim o elmo de Mambrino e a outrem parecerá outra coisa. E foi rara providência do sábio fazer com que a todos pareça uma bacia o que na realidade e verdadeiramente é o elmo de Mambrino, pois, sendo ele de tal estima, todo o mundo me perseguiria para mo tirar, mas como vêem que não é mais do que uma bacia de barbeiro, não se dão ao trabalho de o procurar…”

Cervantes - D.Quixote de la Mancha

Na semana que passou

Após dez anos de indecisões, conversações e negociações, foi finalmente inaugurado, com a pompa e circunstancia que merecia, o Museu Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea
Avaliada em mais de 300 milhões de euros, com obras dos maiores autores de arte contemporânea, de Picasso a Dali, de Warhol, a Miro, está finalmente disponível para os olhos dos comuns mortais
Joe Berardo, em entrevista directa, e ao lado do nosso Primeiro, afirmou satisfeito “…a cultura é linda e se temos cacau para a comprar ainda melhor..”
Um mimo!

O conhecido Miguel Paes do Amaral, começou a comprar uma série das maiores e mais destacada editoras literárias, afirmando, numa entrevista recente, que apenas se trata de uma operação financeira e não cultural, pois “… Os livros não me interessam.”
Pois, ele é mais dos carros de desportos.
E os livros ficaram tristes


A Câmara dos Técnicos Oficiais de Conta publicou no seu anuário um estudo que prova que a maior parte das Autarquias do Pais está em ruptura financeira.
Fernando Ruas, Presidente da ANMP, diz que o estudo, não estando errado, não é bem assim, e que se assim fosse as Autarquias tinham de fechar as portas.
Afinal?

29/06/07

Do grande Pablo Neruda -Poema XX

TecnoPost


É hoje...é hoje que é lançado nos E.U.A o iPhone da Apple,
Um telemóvel, leitor de música e vídeos, televisão e acesso à Internet.
Diz quem sabe, que por Nova Iorque há filas à porta das lojas da Apple desde 2ª feira,para o comprar.
A sua chegada é aguardada no mercado europeu, lá para o final do ano.
Vou já começar a por de parte uns eurozitos

28/06/07

Obras em casa


Pois é meus amigos, este blogue ainda está assim. Há que ter paciência...