16/06/16

A CASA (excerto)


Espero-a. Não consigo tocar em nada, o coração impaciente. No...
corpo da casa balanço o meu próprio corpo. Não há, de facto, li-
mites, nem para a cobardia nem para a audácia.
Deserto este, a casa. Deserto. Apenas o odor impensável da água
pura, o perfume do vazio, a descoberta por fazer, peregrinação
dos olhos: contornos da luz, travessia de sombras, espécie de cis-
ne vogando na penumbra. Espero-a como se perguntasse ao mar
pelo outro lado de mim. Relação. Círculo. Divisão. Fogueira. O
tempo, o fóssil do futuro. Espero-a.
A casa recolhe os últimos fios de luz. Filtra-os, borboletas de voo
suave. Fibras. Tranças. As paredes expõem o grande quadro da
nudez e o silêncio vem ocupar o espaço da luz, movendo-se. Do
outro lado do vidro, chove, permanece chovendo. Sigo com o olhar
uma gota, esse monumento ínfimo da criação, no seu caminho de
fulgor para a morte, mensagem de há cem milhões de anos envia-
da ao coração. Pelos estreitos corredores do outono a água circu-
la na memória. Nenhuma verdade é inteiramente verdade.

Joaquim Pessoa in CADERNO DE EXORCISMOS

17/09/15

OS TEUS OLHOS


Direi verde
do verde dos teus olhos

de um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio
mais ave
ou vento

Direi vácuo
volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos vício

Voragem mais veloz
mais verde
ou vinco
voragem mais crespada
ou precipício
© MARIA TERESA HORTA
In As palavras do corpo, 2012

23/01/14

da figura das coisas

hoje, os vendavais
que dão novos ângulos
à figueira nua de folhas,
cujos troncos se desencontram
como riscos feitos no azul
pelo Deus ignoto,
começaram, ou recomeçaram,
o que é o mesmo,
porque ano após ano,
o deus risca nos céus
traços diversos únicos.

fiama hasse pais brandão in as fábulas


23/09/13



Equinócio

Árvores são máquinas de caírem folhas
como nós somos de doer e fim e noites
E quando choramos não fazemos mais
do que a nossa mui íntima obrigação
Se amamos tão úteis quanto uma flor
pétala a pétala até chegar o Outono
é porque não assinámos o tempo
E clandestinamente vamos caindo
amparando as mortes com beijos
à espera de um fim para começar

Nuno Camarneiro

22/07/13

per te

05/06/13

O Silêncio  

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

29/05/13

After The Storm

There are so many islands!
As many islands as the stars at night
on that branched tree from which meteors are shaken
like falling fruit around the schooner Flight.
But things must fall,and so it always was,
on one hand Venus,on the other Mars;
fall,and are one,just as this earth is one
island in archipelagoes of stars.
My first friend was the sea.Now,is my last.
I stop talking now.I work,then I read,
cotching under a lantern hooked to the mast.
I try to forget what happiness was,
and when that don't work,I study the stars.
Sometimes is just me,and the soft-scissored foam
as the deck turn white and the moon open
a cloud like a door,and the light over me
is a road in white moonlight taking me home.
Shabine sang to you from the depths of the sea.

Derek Walcott

10/02/13





Dois Amantes, o Mundo

dois  amantes, o mundo 
cada um no seu reino, beijam-se nas praias 
quando as ondas batem as areias 

o mar é o meu navio, 
hoje naufrago feliz 

sabes quem sou, as dunas 
que se levantam com o vento são 
os sonhos do amor que dormita 
em sossego nas praias 

a terra és tu o mar sou eu 


Jorge Reis-Sá, in "A Palavra no Cimo das Águas"

23/01/13




O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen

09/01/13


Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face.

Eugénio de Andrade in
As Mãos e os Frutos

04/01/13


16/11/12

...E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada...

 Florbela Espanca in A Mensageira da Violeta

24/08/12



Pressinto

transparência nas asas
aguarela salpicada de oceano
simples rasgo de sol cortando brumas

Já perto avista-se luz no farol

20/05/12



"Amainaste as tempestades que pareciam infindáveis e aconchegaste-me no regaço onde teimo em repousar"

17/04/12


Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna.

Aleksandr Púchkin, in «O Cavaleiro de Bronze e Outros Poemas»

10/04/12



Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


(Fernando Pessoa)

27/03/12


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny, in Pena Capital

05/02/12




do melhor de L'arpeggiata

01/02/12

Once upon a time in February...




"...A coluna onde me esperavas e o mundo desfazendo os contrários..."

22/01/12

17/01/12


Sabedoria do Mundo

Não fiques em terreno plano.
Não subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Está a meia encosta.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

08/01/12

06/11/11


04/10/11


Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a Noite não lhe quer dar!


Natália Correi in Rio de Nuvens

20/08/11

22/07/11




P O V O A M E N T O

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates

10/06/11

07/05/11

06/05/11




Foi atribuida hoje a Bandeira Azul à minha praia preferida
Porto Pim - Horta - Faial -Açores

01/05/11

28/04/11



...
de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena,Desencontro in 'Post-Scriptum'

17/04/11

10/04/11


Desenho de Urbano



andar por ai
dentro da tua sombra,

enxuto



Emanuel Jorge Botelho, Dois Poetas e Um Pintor, Ed Artes e Letras.
(Livraria Solmar)

03/04/11

19/02/11

10/02/11


Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.


Eugénio de Andrade

06/02/11

09/01/11

06/01/11



preciosidades do meu baú

31/12/10


Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

23/12/10

Feliz Natal


Adoraçao dos Pastores de Josefa de Óbidos


Honrarei o Natal em meu coração e tentarei conservá-lo durante todo o ano

Charles Dickens

19/12/10

16/12/10


A Minor Bird by Robert Frost


I have wished a bird would fly away,
And not sing by my house all day;

Have clapped my hands at him from the door
When it seemed as if I could bear no more.

The fault must partly have been in me.
The bird was not to blame for his key.

And of course there must be something wrong
In wanting to silence any song.

09/12/10



Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo na vaga
tocando nas rochas!
E quantos e quantos naufragando...

Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!

Manuel da Fonseca, Rosa-dos-Ventos

22/11/10



Na sombra da montanha
dormem os lagos verdes e calmos
E na tela da água o brilho do sol
desdobra as cores do dia que nasce


Poema celta

13/11/10

30/08/10

27/08/10


Creio nos anjos que andam pelo mundo,

Creio na deusa com olhos de diamantes,

Creio em amores lunares com piano ao fundo,

Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

*

Creio num engenho que falta mais fecundo

De harmonizar as partes dissonantes,

Creio que tudo é étero num segundo,

Creio num céu futuro que houve dantes,

*

Creio nos deuses de um astral mais puro,

Na flor humilde que se encosta ao muro

Creio na carne que enfeitiça o além,

*

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

Na ocupação do mundo pelas rosas,

Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.



Natália Correiain A Mulher, antologia poética (Antologia), 1973

22/07/10

Per Te



Quase de nada místico

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.


de Às Vezes o Paraíso



Ana Luísa Amaral
Anos 90 e agora
Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa

10/07/10


dá-me os teus olhos

eles são lagos, crateras de atenção, e a tua boca na minha torna o meu vestido num fragmento de mim, tecido-terra por onde circula a claridade

dá-me os teus olhos

esta é a hora temperada de excepcionalidade, de um não-pensar, via da consolação e dom, momento em que nada se disse e não importou

dá-me os teus olhos, só assim serei alguém de amor


Ana Marques Gastão

03/07/10


14 de Março de 1916

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento.
Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca.


Excerto de carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro

26/06/10



Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, e depois perdem o dinheiro para a recuperar. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido...

Confúcio

22/06/10

per te

17/06/10

15/06/10

12/06/10



Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.

09/06/10

andando por ai

06/06/10

domingo á tarde

03/05/10

02/05/10


CANÇÃO DA PRIMAVERA

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
pois que maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar flor, já não dou.

Eu, cantar já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul,calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arripio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar,não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio

23/04/10

um achado - per te!

19/04/10


A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia - o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível.

Teolinda Gersão, Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984

24/03/10


Do anónimo rumor

Estou ouvindo sem ouvir o que sempre ouço
o anónimo rumor de tudo ser o que é
tão irrevogável como o silêncio que através dele é só silêncio
Nunca uma palavra ou um gesto poderá alterar esta ausência
do que nunca se manifesta mas que faz surgir os seres e as coisas
Tal é o domínio da existência a que não se pode fugir
e em que se morre com a boca apagada por um grito ou um suspiro
O que acontece em cada dia é o fortuito fluir
do que só é necessário em si mas não para nós
Não nós não estamos no mundo mas na distância insuperável
de um ser inacessível e essa distância somos nós
Nunca poderemos conhecer o insondável ser
que não é mais do que tudo o que é mas sem o ser
Em vão procuramos a presença deste ausente
Sabemos que se ele se manifestasse o mundo não seria o mundo
e a sua presença seria um excesso que anularia a nossa liberdade
Não há contrapartida para o desamparo não há consumação
para o que no existir é a crispada urgência
e a morte é sempre extemporânea

António Ramos Rosa

21/02/10

Para ti...

17/02/10


No pingo da chuva o sal da terra
e o cheiro da vida

assim se cozem os sentires impressionistas


Maria Helena Monteiro

23/01/10




“…Milagre é o coração começar sempre
no peito de outra vida."



Mia Couto in “a Chuva Pasmada

30/12/09

Feliz Ano Novo




Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

23/12/09

Feliz Natal


Falavam-me de amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia in O Dilúvio e a Pomba

16/12/09



De dia correm nuvens, flutuantes!
De noite vivem estrelas, cintilantes!
Se ousares subir tocando em cordas puras,
Entoarás a eterna música das esferas.


Johann Wolfgang Goethe, in O jogo das nuvens

12/11/09


Não sei para que lado da noite

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

Carlos Alberto Machado in Talismã

31/10/09



Silentium

Speak not, lie hidden, and conceal
the way you dream, the things you feel.
Deep in your spirit let them rise
akin to stars in crystal skies
that set before the night is blurred:
delight in them and speak no word.

How can a heart expression find?
How should another know your mind?
Will he discern what quickens you?
A thought once uttered is untrue.
Dimmed is the fountainhead when stirred:
drink at the source and speak no word.

Live in your inner self alone
within your soul a world has grown,
the magic of veiled thoughts that might
be blinded by the outer light,
drowned in the noise of day, unheard...
take in their song and speak no word.

Fyodor Tyutchev (trad.de Vladimir Nabokov in Three Russian Poets)

29/09/09



Poema

Eleges o lugar da ferida
onde falamos o nosso silêncio.
Fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.

Alejandra Pizarnik in Antologia Poética

23/09/09



37° 52' 5.08" N 25° 47' 35.96" W

20/09/09



eu, gaivota
sobrevivente de tempestades
voo planando sobre o teu corpo ilha
e nem os ventos contrários que fustigam as asas
impedem-me o verde

11/09/09



existe sempre ontem na memória que me enche de
sonhos, os teus dedos tocam-me dentro dos sonhos.
nos teus lábios, imagino beijos. perdi-me no mundo.

José Luís Peixoto in “A casa, a escuridão”

05/08/09


Imagem: Helena Monteiro - Caneta/pincel com tinta da China

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

Teresa Balté in Poesia Quase Toda

25/07/09


Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, Quem tens lá no fundo?
É Esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma: será dia!

Álvaro de Campos - Obras Completas

22/07/09

especialmente hoje


No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
...

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

Mia Couto in Desencontros