10/05/17

Forgetfulness


Forgetfulness is like a song
That, freed from beat and measure, wanders.
Forgetfulness is like a bird whose wings are reconciled,
Outspread and motionless, --
A bird that coasts the wind unwearyingly.

Forgetfulness is rain at night,
Or an old house in a forest, -- or a child.
Forgetfulness is white, -- white as a blasted tree,
And it may stun the sybil into prophecy,
Or bury the Gods.

I can remember much forgetfulness.

16/06/16

A CASA (excerto)


Espero-a. Não consigo tocar em nada, o coração impaciente. No...
corpo da casa balanço o meu próprio corpo. Não há, de facto, li-
mites, nem para a cobardia nem para a audácia.
Deserto este, a casa. Deserto. Apenas o odor impensável da água
pura, o perfume do vazio, a descoberta por fazer, peregrinação
dos olhos: contornos da luz, travessia de sombras, espécie de cis-
ne vogando na penumbra. Espero-a como se perguntasse ao mar
pelo outro lado de mim. Relação. Círculo. Divisão. Fogueira. O
tempo, o fóssil do futuro. Espero-a.
A casa recolhe os últimos fios de luz. Filtra-os, borboletas de voo
suave. Fibras. Tranças. As paredes expõem o grande quadro da
nudez e o silêncio vem ocupar o espaço da luz, movendo-se. Do
outro lado do vidro, chove, permanece chovendo. Sigo com o olhar
uma gota, esse monumento ínfimo da criação, no seu caminho de
fulgor para a morte, mensagem de há cem milhões de anos envia-
da ao coração. Pelos estreitos corredores do outono a água circu-
la na memória. Nenhuma verdade é inteiramente verdade.

Joaquim Pessoa in CADERNO DE EXORCISMOS

17/09/15

OS TEUS OLHOS


Direi verde
do verde dos teus olhos

de um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio
mais ave
ou vento

Direi vácuo
volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos vício

Voragem mais veloz
mais verde
ou vinco
voragem mais crespada
ou precipício
© MARIA TERESA HORTA
In As palavras do corpo, 2012

23/01/14

da figura das coisas

hoje, os vendavais
que dão novos ângulos
à figueira nua de folhas,
cujos troncos se desencontram
como riscos feitos no azul
pelo Deus ignoto,
começaram, ou recomeçaram,
o que é o mesmo,
porque ano após ano,
o deus risca nos céus
traços diversos únicos.

fiama hasse pais brandão in as fábulas


23/09/13



Equinócio

Árvores são máquinas de caírem folhas
como nós somos de doer e fim e noites
E quando choramos não fazemos mais
do que a nossa mui íntima obrigação
Se amamos tão úteis quanto uma flor
pétala a pétala até chegar o Outono
é porque não assinámos o tempo
E clandestinamente vamos caindo
amparando as mortes com beijos
à espera de um fim para começar

Nuno Camarneiro

22/07/13

per te

05/06/13

O Silêncio  

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

29/05/13

After The Storm

There are so many islands!
As many islands as the stars at night
on that branched tree from which meteors are shaken
like falling fruit around the schooner Flight.
But things must fall,and so it always was,
on one hand Venus,on the other Mars;
fall,and are one,just as this earth is one
island in archipelagoes of stars.
My first friend was the sea.Now,is my last.
I stop talking now.I work,then I read,
cotching under a lantern hooked to the mast.
I try to forget what happiness was,
and when that don't work,I study the stars.
Sometimes is just me,and the soft-scissored foam
as the deck turn white and the moon open
a cloud like a door,and the light over me
is a road in white moonlight taking me home.
Shabine sang to you from the depths of the sea.

Derek Walcott

10/02/13





Dois Amantes, o Mundo

dois  amantes, o mundo 
cada um no seu reino, beijam-se nas praias 
quando as ondas batem as areias 

o mar é o meu navio, 
hoje naufrago feliz 

sabes quem sou, as dunas 
que se levantam com o vento são 
os sonhos do amor que dormita 
em sossego nas praias 

a terra és tu o mar sou eu 


Jorge Reis-Sá, in "A Palavra no Cimo das Águas"

23/01/13




O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen

09/01/13


Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face.

Eugénio de Andrade in
As Mãos e os Frutos

04/01/13


16/11/12

...E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada...

 Florbela Espanca in A Mensageira da Violeta

24/08/12



Pressinto

transparência nas asas
aguarela salpicada de oceano
simples rasgo de sol cortando brumas

Já perto avista-se luz no farol

20/05/12



"Amainaste as tempestades que pareciam infindáveis e aconchegaste-me no regaço onde teimo em repousar"

17/04/12


Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna.

Aleksandr Púchkin, in «O Cavaleiro de Bronze e Outros Poemas»

10/04/12



Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


(Fernando Pessoa)

27/03/12


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny, in Pena Capital

05/02/12




do melhor de L'arpeggiata

01/02/12

Once upon a time in February...




"...A coluna onde me esperavas e o mundo desfazendo os contrários..."