27/09/08


Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar

Dos teus olhos meu amor
Nascem as ondas do mar
Lágrimas tristes que choram
Saudades do teu olhar

Dos teus olhos meu amor
Nascem as ondas do mar


Fado de Coimbra

14/09/08


só no teu canto encontro paz

em acordes de revolta tempestade
ou no dolente marulhar da acalmia
na pausa das palavras por escutar

nada importa…tu és o meu mar…

22/07/08


Love song

Do not stare at me. do not. I am sincere.
there are many things that happen beyond
my limited control and disappear.
Why should I tell you that I’m not so fond

of most of them? why should I otherwise
coldly excuse myself for having no fear?
I have no time left. believe me, the skies
tell us everything is as clean and clear

as a knife’s blade wiped after de red
bleeding of sacrifice, wose mirror says
it will be drawn again and kill instead
of reflecting your narrow flashing face.

Let’s then look at the moon above the trees.
Never forget how much I love you. please.


Vasco Graça Moura in Poesia 2001/2005

10/07/08



Abandono

A quem senão a ti direi
como estou triste? Mas se a tristeza vem
de tu não estares, como ta direi, como hei-
de juntar o que me está doendo ao ven-
to que não bate mais à tua porta? Eu sei

que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo

sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado

ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.

Não haver palavras és tu a desaparecer.


Bernardo Pinto de Almeida in Hotel Spleen

05/07/08


...sempre que te vejo...
crescem asas que não tenho
e a brisa fresca que te precede
dissipa a bruma que me envolve



02/07/08



“De tudo abri mão, mais nada me resta. De quanto possuí, só tu, esperança, permaneces comigo. “

Nietzsche

25/06/08

Para ti!


Partiste...
logo hoje que sol brilhava
partiste

agora anoiteceu
dentro e fora da minha alma
no vazio da tua ausência
afasto a lágrima que me impede o céu
e vejo mais uma estrela

acho que és tu... a sorrir para mim

até sempre mana!

31/05/08


Flores

É nestas flores, em particular, que
vejo desenhar-se uma linha que me leva
de mim a ti, passando sobre um campo
invisível, onde já não se ouvem
os pássaros, e onde o vento não faz cair
as folhas. Estamos em frente de um canteiro
puramente abstracto, e cada uma destas flores
nasceu das frases em que o amor se manifesta,
e do movimento dos dedos sobre a pele,
traçando um fio de horizonte
em que os meus olhos se perdem. Por isso estão
vivas, e alimentam-se da seiva
que bebem nos teus lábios, quando os abres,
e por instantes a vida inteira se resume
ao sorriso que neles se esboça.

Nuno Júdice in Poesia Reunida

27/05/08


vaga...mente

23/05/08

Só depois de sentir a textura das nuvens na tuas mãos
percebi sentimentos que não cabem em poemas

não existem palavras de sentir
capazes de desenhar reflexos de um sonho

então não digo …

20/05/08

Foto de Zé Pedro



"Movimentos"

Apertei mais a tua mão presa na minha e senti-te subitamente longe. Dobrei mais ainda os dedos sobre os teus quase fincando as unhas, sentindo a pele quente, os dedos compridos, firmes, toda a tua mão como que todo o teu corpo. A saudade, a distância do teu corpo, a distância da tua mão ali na minha. O teu perfil recorta-se na quase total escuridão da sala. Desvio os olhos de ti e fixo-os no ecran brilhante, luminoso; o teu perfil persiste sobrepondo-se à rapariga que canta (...)


Subitamente distante encolho-me e sinto-me tão só que aperto mais os dedos sobre os teus numa espécie de arrepio e torno-te a olhar o perfil correcto desenhado e frio na obscuridade da sala. Nos meus ombros a ausência do teu braço cria um vazio, uma ferida, uma cicatriz dolorosa. (...)



Maria Teresa Horta in Ambas as mãos sobre o corpo

19/05/08



Domingo
hoje inverteram-se os papeis
não fomos ver o mar
fui eu ver-te
ver-te ... ver o que resta de ti
sorri, impedi a lagrima
gracejei e engoli a raiva
so não te disse como doi,
como gosto de ti

anda, vamos ver o mar...

13/05/08



Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago in Os Poemas Possíveis

Mesmo quietinha e sem publicar grandes coisas, fui honrada com mais um destes prémios, que circulam na blogosfera.

A excelência do blogue de onde provém obriga-me a não ficar indiferente e proceder à sua publicação e consequente distribuição.

Claro que, como sempre, estas atribuições tem regras, mas a verdade é que ando tão cansada delas que, desta vez, apeteceu-me subvertê-las.

Assim, este prémio é para TODOS VÓS, os poucos mas muito bons, que sempre me visitam.

Levem-no… é Vosso!!!


01/05/08



it is at moments after i have dreamed
of the rare entertainment of your eyes,
when (being fool to fancy) i have deemed

with your peculiar mouth my heart made wise;
at moments when the glassy darkness holds

the genuine apparition of your smile
(it was through tears always) and silence moulds
such strangeness as was mine a little while;

moments when my once more illustrious arms
are filled with fascination, when my breast
wears the intolerant brightness of your charms:

one pierced moment whiter than the rest

-turning from the tremendous lie of sleep
i watch the roses of the day grow deep.

e.e.cummings

29/04/08


Amor Vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! a luz fundida
Que penetre no meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

Antero de Quental in Sonetos

24/04/08


Ilha do Lago Innisfree

Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana erguerei lá, de barro e vime feita:
Nove renques de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho na ensurdecedora clareira.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caíndo dos véus da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Oiço a água do lago a folhear murmúrios na rebentação;
Quando vou por estradas, ou por passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.

William Butler Yeats in Pequena Coletânea de Poesias de Língua Inglesa

22/04/08


Elegía Suspirante

El amor enlazaba nuestros pasos, recuerdas?

Hacia mi corazón con indolente gracia
caía tu cabeza, recuerdas?, como cae
sobre el hombro del viento una rama de acacia.

Nos tendía sus brazos desnudos el aroma
de las frutas; tu alma se iba y regresaba
como si por instantes entreabriera los párpados.
Entre los dos estaba como un cuento el silencio.

Balbuceaba el agua lo que los dos callábamos.
la sombra de las hojas pasaba por tu rostro,
como suele el silencio pasar entre la música.
Desleía la tarde su pétalo en tus ojos.

Tu corazón se ha ido, ahora, con la fuente.
El viento habrá borrado los pasos en la arena,
borrado habrá el olvido mi huella por tu frente,
como borra el crepúsculo la luz con que te escribo.

Eduardo Carranza in Seis elegías y un himno

19/04/08



poema (2)

De tarde, no campo, nenhum pássaro cantou;
e só neste fim de dia um vento traz o assobio
da primavera melancólica: despedidas,
imagens breves, nenhuma inspiração. O sopro nocturno,
porém, anuncia um reflexo de espelho no fundo
do corredor. A voz surge de um dos quartos
em que a ausência se perde. Um baço
murmúrio se aproxima do gemido que evoca
o mar - sem que a onda se decida, quebrando
o som agonizante. Então, abro a porta
e chamo-te; sabendo que só a noite me responderá.

Nuno Júdice in Poesia Reunida 1967 -2000

14/04/08



Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentada
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancólicamente.

E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não trás o exaspero das lágrimas nem a fascinação
Das promessas nem as misteriosas palavras dos véus da alma.
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieto, muito quieto
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem
Fatalidade o olhar estático da aurora.

Vinicius de Moraes in Poesia completa e prosa

08/04/08


Soubesse eu ao menos...

Soubesse eu ao menos
- mas quem sou eu
de quem a voz que fala no poema?-
dizer-te neste dia
- mas quem és tu
quem tu a quem este poema se quer fala?-
o quanto a tua voz
não estando aqui
batendo junto à minha voz
como se uma fosse só da outra o vasto eco
me deixa abandonado
como se só essa voz- a tua voz
fosse sopro e forma de mim mesmo
a tua voz que inunda
a tua voz que percorre
por dentro das veias
a tua voz
que quando em mim a ouço
correndo-me por dentro como o sangue
se faz da minha a origem
em mim se faz princípio
me dá o encantamento de ser dia
outra vez
essa voz que sendo tu e eu ao mesmo tempo
me retira da Noite em que obscuro
permaneço sem nome e até sem rosto
sem forma nem princípio
assim se cala.

Bernardo Pinto Almeida in Depois que tudo recebeu o nome de luz ou de noite

01/04/08



A LUZ

Não se pode prever. Sucede sempre
quando menos o esperas. Pode acontecer que vás
pela rua, depressa, porque se faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
te encontres em casa de noite, a ler
um livro que não consegue convencer-te; pode
acontecer também que seja verão
e te tenhas sentado na esplanada
de um café, ou seja inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou fatigado,
que tenhas trinta anos ou sessenta.
É imprevisível. Nunca sabes
quando nem como ocorrerá.

Decorre
tua vida igual a ontem, comum e quotidiana.
«Um dia mais», dizes para ti. E de súbito
desata-se uma luz poderosíssima
dentro de ti e deixas de ser o homem que eras
há só um momento. O mundo, agora,
é para ti diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
tão longos da infância e respiras à margem
de seu escuro fluir e seu estrago.

Pradarias do presente, por onde erras livre
de cuidados e culpas. Uma agudeza insólita
mora em teu ser: tudo está claro, tudo
ocupa o seu lugar, tudo coincide e tu,
sem luta, compreende-lo.

Talvez dure
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes que essa luz te desse
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te calmo, puro, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.

Eloy Sánchez Rosillo in Maneras de Estar Solo, trad. José Bento
_____________

26/03/08

É o tempo cansado arrastando a repetição dos dias

hábito recente de anunciada ausência

são mãos de silêncio acariciando o espaço vazio

e o sol insistindo em brilhar... apesar de ti

13/03/08


que dirias hoje
se soubesses que amanhã
não estou cá
que em mais nenhum amanhã
eu vou estar cá
sim,que me dirias?
..hoje...

09/03/08



hoje não amanheci
é ... há dias em que não amanheço
entra a noite pelo dia,
pautas de acordes incompletos, rodopiam
e as letras, caindo num abismo transparente
recusam formar palavras que digam...

06/03/08



Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.


Carlos Drummond de Andrade In As Impurezas do Branco

28/02/08



... devagar...
muito devagar
passos calçando ternura
controem-se pontes

tão frágeis
...tão seguras...

26/02/08



Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto


António Ramos Rosa in O Teu Rosto(1994)

21/02/08

voo no dorso do verso
afago breve de mão fugidia
…horizonte que tarda em chegar …

20/02/08


recebi um destes dias este mimo que, orgulhosa e disfarçadamente, ostento no cantinho inferior direito deste humilde blogue, oferecido por Cantares de amigo e Pequenos Nadas, com a indicação de passá-lo a outros sete blogues que reunissem em meu entender as seguintes condições:

" sabe aquele blog do tipo que, apesar da sua vida corrida, com milhões de relatórios pra entregar, clientes pra recepcionar, patrão te enchendo o saco, você não pode deixar de dar uma olhadinha para conferir as novidades? aquele blog que você lê todo santo dia, mesmo que não haja novidades? aquele tipo que, no trabalho, ou numa caminhada, ou num churrasco entre amigos, você não vê a hora de acessar a internet pra dar uma olhadinha? enfim... pra atalhar... aquele blog que não te sai da cabeça???presenteie, então, o autor desse blog com esse selo..."

Então as minhas escolhas são:

oitava edição

selos difusos

linha de cabotagem

na dualidade da cor

passages

as mãos por dentro do corpo

un-dress

Levem-no que é vosso...

15/02/08


Melodia apenas
- sem caveiras de fogo
a iluminarem o pensamento das pedras.

Melodia apenas
- sem o suor das mãos dadas
no guiar dos labirintos.

Melodia apenas
- sem as lágrimas por dentro das flores
a queimarem o coração dos mortos.

Melodia apenas
dos pássaros ocos
a cantarem nas àrvores
a repetição emplumada
do cio do primeiro mundo...

Vem, melodia!

Melodia apenas.


José Gomes Ferreira in Poeta Militante

09/02/08

... os muros e as paredes ...

densos nevoeiros
de cinzentos impossíveis

mesmo assim brilhas
e respingas de sol o meu olhar

05/02/08


um leve bater de asas
…foi quanto durou…

não tivessem teus olhos
a mais perfeita das cores
e jamais saberia
da palavra poema

27/01/08

trazido pelo vento
eco de risos distantes,
trote de cascos molhados
mastigando beira-mar

não sei se oiço,
ou invento
saúdo-te apenas
Noite Negra,
que a Lua é dos amantes

23/01/08


...reclusas as palavras...

17/01/08

nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

15/01/08


...
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
As vezes amanheço, e minha alma está húmida.
Soa, ressoa o mar distante
...

Pablo Neruda

13/01/08


sonhei-te

mar imenso, incêndio incontrolável,
avassaladora tempestade de sentidos

e no entanto … um só olhar
basta-me

09/01/08


Quais são as tuas palavras essenciais?
As que restam depois de toda a tua agitação
e projectos e realizações.
As que esperam que tudo em si se cale
para elas se ouvirem.
As que talvez ignores
por nunca as teres pensado.
As que podem sobreviver quando o
grande silêncio se avizinha.

Vergílio Ferreira

04/01/08

Abraço

De repente deu vontade de te dar um abraço...
Uma vontade de entrelaço, de proximidade.
de amizade..sei lá..
Talvez um aconchego que enfatize a vida e
amenize as dores...
Que fale sobre os amores,
que seja teimoso e ao mesmo tempo forte.
Deu vontade de poder rever saudade
de um abraço.
Um abraço que eternize o tempo
e preencha todo espaço
mas que faça lembrar do carinho,
que surge devagarzinho
da magia da união dos corpos, das auras..sei lá..
Lembrar do calor das mãos
acariciando as costas
a dizer..
"estou aqui."
Lembrar do trançar dos braços envolventes e seguros afirmando
"estou com você"..
Lembrar da transfusão de forças
com a suavidade do momento ..sei lá..
abraço...abraço...abraço...
abraço...abraço..abraço...
abraço...abraço...abraço...
O que importa é a magia deste abraço!
A fusão de energia que harmoniza,
integra tudo, e que se traduz
no cosmo, no tempo e no espaço.
Só sei que agora deu vontade desse abraço!!
Que afaste toda e qualquer angústia.
Que desperte a lágrima da alegria,
e acalme o coração..
Que traduza a amizade, o amor e a emoção.
E para um abraço assim só pude pensar em você....
nessa sua energia,
nessa sua sensibilidade
que sabe entender o por quê...
dessa vontade desse abraço.

Vinicius de Moraes

21/12/07

Feliz Natal


recados para orkut

[blue]***[/blue] Novas animações de Ávores de Natal

19/12/07


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhamos na cidade clandestina
Quando as manhas cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa in Antologia Poética

16/12/07

insólito bailado
de ventos ciclónicos
sacode-me a alma

sinto-te fim

e rodopiam as palavras
ébrias do sal
das lágrimas contidas

12/12/07


Que me importa que chova e arrefeça
à minha passagem
se trago na cabeça a ideia e o luar
que estendo na paisagem quando a noite chegar?
(E não há luar mais belo
do que esta música de concebê-lo.)
[…]

José Gomes Ferreira in Poeta Militante II



Porque quando se ousa caminhar, serenamente os atalhos de todos os sonhos e memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo... e o quase nada.

10/12/07


Nirvana

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais

Antero de Quental in Sonetos

06/12/07



...e a maciez de tudo:
um lápis entre os dedos,
dois cigarros,
quatro colheres de
açúcar,
que me amargava o chá
(mesmo de nervos)

Assim já está
melhor: amarga a vida
mas o chá docinho:
luminosa cidreira
entre pregas e rotas
interiores.

Caminho certo
para o coração

Ana Luísa Amaral- Aritmética, in Poesia reunida

03/12/07



(Prelúdio em forma de grito, para um livro de confissões pessoais que nunca escreverei)

Ouve, tu que não existes em nenhum céu:

Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos
- menos eu.

Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal.

Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros.

- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer.

..................................................................................

Ah! Se eu imitasse a alegria das arvores e do vento
Que riem sem motivo.

Mas não. Ando triste.
Já não me contento em sentir-me vivo…
(E que outro destino existe?)


José Gomes Ferreira in Poeta Militante

30/11/07



Difícil...
difícil e inglória tarefa, esta das mãos tentarem acompanhar ao teclado,

o pensamento que vagueia inquieto...

27/11/07


Canción de la espera

Espero tu sonrisa y espero tu fragancia
por encima de todo, del tiempo y la distancia.
Yo no sé desde dónde, hacia dónde, ni cuándo
regresarás... sé sólo que te estaré esperando.

En lo alto del bosque y en lo hondo del lago,
en el minuto alegre y en el minuto aciago,
en la función pagana y en el sagrado rito,
en el limpio silencio y en el áspero grito.

Allí donde es más fuerte la voz de la cascada,
allí donde está todo y allí donde no hay nada,
en la pluma del ala y en el sol del ocaso,
yo esperaré el sonido rítmico de tu paso.

Comprendo que de mí ya se ría la gente
al ver cómo te espero desesperadamente.
Cuando todos los astros se apaguen en el cielo,
cuando todos los pájaros paralicen el vuelo
cansados de esperarte, ese día
lejano yo te estaré esperando todavía.

No importa: aunque me digan todos que desvarío,
yo te espero en las ondas musicales del río,
en la nube que llega blanca de su trayecto,
en el camino angosto y en el camino recto.

Niño, joven o anciano, sonriendo o llorando,
en el alba o la tarde, yo te estaré esperando,
y si me convenciera que ese ansiado día
no habría de llegar, también te esperaría.


José Angel Buesa in Babel

26/11/07


…de como nada mais precisa dizer, pois que já o fez Álvaro de Campos, como abaixo de pode ler...

I

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei,
De nada me serviria sabê-lo
Pois o cansaço fica na mesma,
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
[…]
Estou cansado é claro
II

[...]
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia
ver da rua
Não há travessa achada o número de portas que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapso de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
[…]

Lisbon Revisited (1926)

III

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
[…]
O que há em mim é sobretudo cansaço

22/11/07


Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.


Álvaro de Campos