25/06/09


as palavras hibernam
nas cores esbatidas de lentas madrugadas
áridas sonolentas as mãos pausam
na ausência da tua pele poema

ate que o tempo acorde

24/06/09



há mortes que não sabem que a morte

é um verso que deixa

destroços


como um grande naufrágio



Maria Azenha

28/05/09



distendem-se as asas
ensaio o voo...

que nas tuas mãos molda-se a miragem do mundo novo

25/05/09



"...Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo..."

17/05/09


o teu rosto à minha espera.o teu rosto
a sorrir para os meus olhos.existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos finas e claras.vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de Outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será hoje na memória.

hoje compreendo os rios.a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luis Peixoto in «A casa, a escuridão»

09/05/09

03/05/09



entre cinzas despontam horizontes límpidos
e da tua voz promessa, madrugadas sem bruma

tão simples
como o sopro do vento que embala a flor…

01/05/09


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

18/04/09



“Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o Inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.”

José Luis Peixoto in A criança em ruinas

14/04/09


era Fevereiro e nascia a Primavera
tu desenhavas-me campos de flores
e um sol tão grande que me aquecia
era Fevereiro nascia a Primavera

e eu aprendia o nome das cores…

10/04/09

05/04/09


Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros in Poemas

31/03/09


Abril
prenúncio latente de horizontes
largos

rota traçada a girassóis...

29/03/09


AZUL DE TI

Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.

Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.

Es como un horizonte de violines
o un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.

El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.


Eduardo Carranza in Antologia Poética

23/03/09


Na voz que emana o canto
ensaia-se o tímido planar da gaivota

nas notas uníssonas
apazigua-se a alma

17/03/09


No dorso do teu olhar alado
recuso o abismo
rasgo nevoeiros em voo picado
desfaço teias, sopro névoas

e vejo-te com olhos de alma liberta

20/02/09


apago sombras, o medo
tons de cinzento e o negro
que a alma pode ser tela
óleo, aguarela

salpicada de arco-íris

16/02/09


Canción del amor prohibido

Sólo tú y yo sabemos lo que ignora la gente
al cambiar un saludo ceremonioso y frío,
porque nadie sospecha que es falso tu desvío,
ni cuánto amor esconde mi gesto indiferente.

Sólo tú y yo sabemos por qué mi boca miente,
relatando la historia de un fugaz amorío;
y tú apenas me escuchas y yo no te sonrío...
y aún nos arde en los labios algún beso reciente.

Sólo tú y yo sabemos que existe una simiente
germinando en la sombra de este surco vacío,
porque su flor profunda no se ve, ni se siente.

Y así dos orillas tu corazón y el mío,
pues, aunque las separa la corriente de un río,
por debajo del río se unen secretamente.


José Angel Buesa in Babel

04/02/09


aquieta-se a alma no silêncio
ânsia de escutar bater de asas
sobra urgência de mãos na noite adiada

talvez seja tarde
talvez madrugada...

31/01/09


Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.

Há um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti. Há um saber pela experiência
o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência

que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)

naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.


Manuel Alegre

27/01/09


Já sei que primeiro vê-se a estrela do futuro,
antes do futuro vê-se a estrela
dizem que a estrela está quase pronta
para ser vista pela primeira vez uma madrugada
e assim todos os dias
sempre
até que eu acabe


Almada Negreiros in Segunda Manhã

22/01/09


das palavras à ternura
suspende-se a alma

entre o salto e a rede
subtraem-se medos...

18/01/09



o vento castigando os ramos da velha laranjeira, indiferente ao pio agoniado das gaivotas que adivinham o aproximar da tempestade
sobre as letras de um poema de Rilke dançam as sombras quentes da vela
nas mãos de Menuhin o arco desliza no violino pintando de suave nostalgia as paredes da sala

houvesse um Domingo perfeito e tu estarias aqui…

16/01/09

...da noite só o poema por encontrar
e o bailado murmurante dos fantasmas
ergue-se lentamente a manhã
tentando rasgar a bruma

árdua e inglória tarefa

07/01/09


Lá fora, não sei onde
- talvez dentro de mim -
ouço o ranger dum barco
na invenção das ondas
aladas no vento...


José Gomes Ferreira

30/12/08


...prefiro-te
entre toda a claridade

toque de luz
que me transforma em habitante da lua

19/12/08


NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre

09/12/08


Desconforto II

Vazio de cidade,
há uma desordem em mim.
Contemplador de desvãos,
vou esculpindo infrutíferas buscas.
O que há de encontro na minh’alma
é só o apóstrofo.
Busco desvencilhar-me da ferrugem da estrada,
do ferrolho das minhas ausências,
quando substantivo a vontade.
Há em mim doença de lagarta,
predisposição para casulo,
pretensão para eterno.
Voar é o meu destino.
Rastejante, carrego primórdios,
contemplo a estrada.

Francisco Perna Filho in Refeição

27/11/08


Canção

Limiar de ser
entre sombra e voo
à face de ser
pouco mais que sopro

Sem saber se é
criatura ou ar
entre o não sei quê
e o saber voar

Todo iluminado
feito só de errância
conhece o acaso
e a circunstância

Ténue passageiro
de um gesto a lembrança
no seu voo ei-lo
como uma criança

Sem rosto nem rasto
despido de branco
voa contra o vento
ébrio de ser anjo.

Bernardo Pinto de Almeida in e outros poemas

05/11/08


A estrada não trilhada

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longo declive
no qual, dobrando, desaparecia...

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atractivo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
Duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Robert Frost in Antologia Poética

28/10/08

CAMPANHA SOS CAGARRO 2008
O Cagarro é a ave marinha mais caracteristica dos Açores,estimando-se a sua população em cerca de 203.000 casais reprodutores.
Os seus cantos nocturnos são peculiares e inesquecíveis, sendo uma das aves mais antigas que existem à superfície da terra
Entre Março e Outubro, os Açores são procurados por esta ave marinha para a respectiva nidificação, sendo mesmo considerado o mais importante local do mundo utilizado para o efeito.
No fim de Outubro os cagarros juvenis, que já atingiram a plumagem e o tamanho adulto são abandonados, nos ninhos, pelos progenitores e, movidos pela fome, lançam-se ao mar, enfrentando várias ameaças :

A destruição do habitat de nidificação, através da introdução de plantas e animais exóticos, o crescimento urbano e da rede de estradas litorais,a captura e morte de adultos e crias para obtenção de isco, para alimentação ou ainda por pura crueldade,são factores que associados ao atropelamento e colisão de cagarros juvenis em estradas e localidades, contribuem para o aumento da elevada taxa de mortalidade que se verifica na época do outono.

Este ano salve um cagarro
Procedimentos para salvar um cagarro
Se encontrar um cagarro ferido ou desorientado faça o seguinte:
- Prepare uma caixa de papelão (por exemplo uma caixa de sapatos) e faça-lhe alguns furos.
- com uma camisola, casaco ou manta cubra o cagarro;
- Apanhe-o e coloque o cagarro na caixa de papelão;
- Leve o cagarro para casa e deixe-o dentro da caixa num local sem barulhos que o possam incomodar;
- Não alimente o cagarro, para que ele não se habitue;
- Na manhã seguinte, dirija-se a um local perto do mar;
- Solte o cagarro, deixando-o pousado no chão e afaste-se do local;
- Ao fim de pouco tempo, o cagarro começará a voar e encontrará o seu caminho.



25/10/08


há muito não sei de mim…
procuro-me no centro das cornucópias azuladas do fumo de um cigarro que, a espaços tenta combater a insónia, companheira permanente de existências sem asas
haverá um Deus das causas perdidas, das almas cansadas, a quem acender uma vela, a quem ensaiar uma prece?

que o vento que fustiga a noite é quase tão frio, quanto a tua ausência

15/10/08


O Vemos, ouvimos e lemos honrou este modesto blogue com o "Prémio Dardos", no qual

"se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:


1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;

3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.


Dando cumprimento às regras,aqui estão, como sempre, os meus mais queridos


8ª edição
a janela de alberti
as mãos por dentro do corpo
cantigas de amigo
estados de alma
in@rq
linha de cabotagem
marulhos
cantigueiro
o farol
passages
perolas de ouro
selos difusos
tons de azul
traços e cores

13/10/08



DERIVA/XIII

Canção rente ao nada
No silêncio quieto
Da noite parada
Como quem buscasse
Seu rosto e o errasse

Sophia de Mello Breyner Andresen in Navegações

07/10/08


mar azul em tarde calma
crepúsculo
aurora boreal

não sei…

jamais saberei dizer-te das cores com que meus olhos te pintam

03/10/08


Olho com cuidado.
Desponta uma flor
pelas frinchas do muro.

Bashô, Matsuo Munefusa (1644-94)

27/09/08


Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar

Dos teus olhos meu amor
Nascem as ondas do mar
Lágrimas tristes que choram
Saudades do teu olhar

Dos teus olhos meu amor
Nascem as ondas do mar


Fado de Coimbra

14/09/08


só no teu canto encontro paz

em acordes de revolta tempestade
ou no dolente marulhar da acalmia
na pausa das palavras por escutar

nada importa…tu és o meu mar…

22/07/08


Love song

Do not stare at me. do not. I am sincere.
there are many things that happen beyond
my limited control and disappear.
Why should I tell you that I’m not so fond

of most of them? why should I otherwise
coldly excuse myself for having no fear?
I have no time left. believe me, the skies
tell us everything is as clean and clear

as a knife’s blade wiped after de red
bleeding of sacrifice, wose mirror says
it will be drawn again and kill instead
of reflecting your narrow flashing face.

Let’s then look at the moon above the trees.
Never forget how much I love you. please.


Vasco Graça Moura in Poesia 2001/2005

10/07/08



Abandono

A quem senão a ti direi
como estou triste? Mas se a tristeza vem
de tu não estares, como ta direi, como hei-
de juntar o que me está doendo ao ven-
to que não bate mais à tua porta? Eu sei

que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo

sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado

ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.

Não haver palavras és tu a desaparecer.


Bernardo Pinto de Almeida in Hotel Spleen

05/07/08


...sempre que te vejo...
crescem asas que não tenho
e a brisa fresca que te precede
dissipa a bruma que me envolve



02/07/08



“De tudo abri mão, mais nada me resta. De quanto possuí, só tu, esperança, permaneces comigo. “

Nietzsche

25/06/08

Para ti!


Partiste...
logo hoje que sol brilhava
partiste

agora anoiteceu
dentro e fora da minha alma
no vazio da tua ausência
afasto a lágrima que me impede o céu
e vejo mais uma estrela

acho que és tu... a sorrir para mim

até sempre mana!

31/05/08


Flores

É nestas flores, em particular, que
vejo desenhar-se uma linha que me leva
de mim a ti, passando sobre um campo
invisível, onde já não se ouvem
os pássaros, e onde o vento não faz cair
as folhas. Estamos em frente de um canteiro
puramente abstracto, e cada uma destas flores
nasceu das frases em que o amor se manifesta,
e do movimento dos dedos sobre a pele,
traçando um fio de horizonte
em que os meus olhos se perdem. Por isso estão
vivas, e alimentam-se da seiva
que bebem nos teus lábios, quando os abres,
e por instantes a vida inteira se resume
ao sorriso que neles se esboça.

Nuno Júdice in Poesia Reunida

27/05/08


vaga...mente

23/05/08

Só depois de sentir a textura das nuvens na tuas mãos
percebi sentimentos que não cabem em poemas

não existem palavras de sentir
capazes de desenhar reflexos de um sonho

então não digo …

20/05/08

Foto de Zé Pedro



"Movimentos"

Apertei mais a tua mão presa na minha e senti-te subitamente longe. Dobrei mais ainda os dedos sobre os teus quase fincando as unhas, sentindo a pele quente, os dedos compridos, firmes, toda a tua mão como que todo o teu corpo. A saudade, a distância do teu corpo, a distância da tua mão ali na minha. O teu perfil recorta-se na quase total escuridão da sala. Desvio os olhos de ti e fixo-os no ecran brilhante, luminoso; o teu perfil persiste sobrepondo-se à rapariga que canta (...)


Subitamente distante encolho-me e sinto-me tão só que aperto mais os dedos sobre os teus numa espécie de arrepio e torno-te a olhar o perfil correcto desenhado e frio na obscuridade da sala. Nos meus ombros a ausência do teu braço cria um vazio, uma ferida, uma cicatriz dolorosa. (...)



Maria Teresa Horta in Ambas as mãos sobre o corpo

19/05/08



Domingo
hoje inverteram-se os papeis
não fomos ver o mar
fui eu ver-te
ver-te ... ver o que resta de ti
sorri, impedi a lagrima
gracejei e engoli a raiva
so não te disse como doi,
como gosto de ti

anda, vamos ver o mar...

13/05/08



Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago in Os Poemas Possíveis

Mesmo quietinha e sem publicar grandes coisas, fui honrada com mais um destes prémios, que circulam na blogosfera.

A excelência do blogue de onde provém obriga-me a não ficar indiferente e proceder à sua publicação e consequente distribuição.

Claro que, como sempre, estas atribuições tem regras, mas a verdade é que ando tão cansada delas que, desta vez, apeteceu-me subvertê-las.

Assim, este prémio é para TODOS VÓS, os poucos mas muito bons, que sempre me visitam.

Levem-no… é Vosso!!!


01/05/08



it is at moments after i have dreamed
of the rare entertainment of your eyes,
when (being fool to fancy) i have deemed

with your peculiar mouth my heart made wise;
at moments when the glassy darkness holds

the genuine apparition of your smile
(it was through tears always) and silence moulds
such strangeness as was mine a little while;

moments when my once more illustrious arms
are filled with fascination, when my breast
wears the intolerant brightness of your charms:

one pierced moment whiter than the rest

-turning from the tremendous lie of sleep
i watch the roses of the day grow deep.

e.e.cummings

29/04/08


Amor Vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! a luz fundida
Que penetre no meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

Antero de Quental in Sonetos

24/04/08


Ilha do Lago Innisfree

Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana erguerei lá, de barro e vime feita:
Nove renques de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho na ensurdecedora clareira.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caíndo dos véus da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Oiço a água do lago a folhear murmúrios na rebentação;
Quando vou por estradas, ou por passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.

William Butler Yeats in Pequena Coletânea de Poesias de Língua Inglesa